UM MUNDO PARTICULAR

por Daniel Amélio dos santos

Osíris Bahr parecia um garoto comum da classe coletora de Nísis, uma típica colônia baixa, localizada quase aos pés do continente das Américas. Apesar de não aparentar nenhuma estranheza visível, o menino tinha uma personalidade completamente diferente, diferente de tudo o que existia naquela colônia e também naqueles tempos tão difíceis. Seria impossível para qualquer pessoa imaginar naquela época, o que aquele garoto tímido ainda seria capaz de fazer.

Osíris sempre foi um garoto muito introspectivo e calado, se limitava sempre a poucas palavras e gestos discretos em qualquer situação, sua casa e a companhia de seu pai, eram as únicas coisas que o faziam sentir-se realmente a vontade. Era muito raro vê-lo falando e interagindo como os outros garotos, ou vivendo o cotidiano comum a todos, quando era preciso se comunicar além do que desejava, Osíris Bahr falava hesitante, tentando pensar em cada palavra que saía de sua boca. Enquanto isso, milhões de coisas passavam pela sua cabeça o tempo todo, seus olhos demonstravam isso. Com certeza, nem mesmo ele fazia ideia do que ainda seria capaz de fazer um dia.

Enquanto todos viviam o ideal guerreiro de defesa e conquistas, Osíris preferia ficar trancado em casa, tranquilo e seguro, sob os cuidados de Ângelo, um pai que sempre procurava ser zeloso e paciente, apesar de saber que o mundo além de sua proteção, era bem diferente disso.

Ângelo percebeu muito cedo que seu filho tinha algo de muito diferente e, embora fosse capaz de compreender isso, sabia que era algo preocupante em uma época que a sobrevivência desenfreada, era uma regra. Aos dois anos, Osíris perdeu sua mãe em uma trágica invasão em Nísis, Ângelo o salvou por muito pouco e sempre soube que de alguma forma, o episódio ficara registrado no inconsciente do menino. Mas Ângelo sempre tentava compensar qualquer sensação de agonia ou solidão que pudessem atingir seu filho. Apesar da severa cultura beligerante em Nísis, ele procurava poupá-lo de boa parte daquela tensão, procurando também compreender suas peculiaridades, particularidades que com algum esforço, já seria possível entender que não bastaria forçar as coisas, o menino era indiscutivelmente diferente e não havia muito que fazer diante disso.

Apesar da sensibilidade incomum, Ângelo era um morador típico de Nísis, pertencia à classe coletora e cumpria com suas obrigações como todos os outros, seu hobby também, era bem parecido com o de muitos outros coletores, fãs da força militar. Desde criança, Ângelo gostava de pesquisar equipamentos militares, era um agradável passatempo falar sobre esse assunto, muitos na colônia faziam isso. Com a premissa de que só os militares poderiam garantir a integridade da colônia e de seus moradores, admirar sua bravura era muito comum em tempos de sobrevivência tão severos. Ângelo guardava um vasto material virtual sobre a tecnologia militar, colecionar e ler aquilo, já era uma distração desde os doze anos.

Aos cinco anos de idade, Osíris Bahr começou a ficar curioso com o material de Ângelo, e o assustou com tal interesse, Osíris aprendeu a ler com esses arquivos e, em pouco tempo, passou a compreender também complexos estudos de magnética, nanotecnologia e manipulação de moléculas, assuntos tão densos e distantes, que era curioso ver uma criança tão pequena, empolgada daquele jeito. Ângelo foi se surpreendendo ainda mais quando percebeu o que seu filho era capaz de fazer com restos de sucata. Aquilo era tão impressionante, que ele não tinha nem coragem de impedi-lo, além disso, era a primeira vez que ele via Osíris começando a se interessar por alguma coisa.

Osíris se entusiasmou com tecnologia com a mesma intensidade que outros garotos se entusiasmavam por lutas, combates e pelo ideal militar. Para Ângelo, isso era muito preocupante, já que não havia futuro algum para alguém da classe coletora empolgado com tecnologia, as classes superiores eram clãs fechados que prezavam apenas sua linhagem. Independente de capacidade, talento ou qualquer outro fator, o requisito fundamental para ser membro dos clãs militar e transformador, era o sangue.

Mas Osíris não estava nem um pouco preocupado em ser aceito, nunca nem pensou nisso, tudo o que ele queria, era ficar como já estava: seguro em casa e na companhia de seu pai, nada mais lhe importava. Logo seus conhecimentos foram ganhando asas com algumas sucatas que foi juntando, em todos os lugares era possível desenterrar restos do mundo antigo – partes de computadores, circuitos e componentes, metais, plásticos, chips de todos os tipos, tudo. As colônias viviam disso, e Osíris passou a se aproveitar muito desta facilidade, ele descobriu que com algumas peças menos destruídas pelo tempo, era possível criar qualquer dispositivo com alguma funcionalidade.

Ângelo passava por ele e via um monte sucata ao seu redor, após algumas horas já era possível ver algum novo aparato andando, flutuando ou ascendendo luzes. Uma vez, Ângelo saiu cedo para a coleta diária e deixou Osíris em casa como de costume, Osíris já estava acordado e parecia nem ter dormido na noite anterior.

– O que você está construindo hoje? – Perguntou Ângelo.

– Um ajudante.

Ângelo fez uma discreta cara de estranhamento e achou melhor não continuar a conversa, apenas riu discretamente e saiu.

Ao voltar para casa no final do dia, deparou-se com Osíris sentado diante de uma pequena mesa de pernas curtas e um estranho braço mecânico acoplado de frente para ele, o membro parecia ser a extensão de seu corpo, e se movia alcançando alguns componentes de modo independente.

Ângelo tentou não demonstrar muita surpresa, ele sempre tentava fazer isso para não incentivar, mas era difícil não se impressionar.

– Foi você quem construiu isso? – Perguntou.

– Sim, é… para me ajudar – respondeu Osíris empolgado.

– Como ele se move?

– Pensamento – Respondeu Osíris – legal, não é?

– Você pensa e ele age, é isso?

– Sim.

Neste dia, Ângelo percebeu que não se tratava apenas de mero talento, Osíris tinha um dom, mesmo que Nísis desprezasse completamente essa realidade em uma classe inferior como a dele, seu filho era realmente diferente.

Uma vez, só de saber por acaso a respeito da tal película cinzenta que os antigos colocaram na atmosfera, Osíris se empolgou. Ele começou a desenvolver um pequeno gerador de campo, tentando simular algo parecido. Quando conseguiu criar uma esfera magnética linda de se ver e parecida com o que imaginou, sua curiosidade deu lugar a algum outro interesse. Era sempre assim.

Todas as residências de Nísis contavam com um sistema inteligente de interface virtual, instalado em uma ou outra parede, transformando-as em grandes monitores, esse sistema proporcionava inúmeras possibilidades como entretenimento, comunicação, administração e organização de tarefas, todas as paredes das casas das classes militar e transformadora, eram integradas a esse sistema, Osíris conseguiu expandi-lo para todas as paredes de sua casa, deixando-a com o mesmo patamar que as casas das classes superiores.

Assim, sua habilidade de transformar restos eletrônicos em algo que funcionasse ia se aprimorando cada vez mais, isso impressionava qualquer pessoa que se aproximasse. Essa capacidade única de criatividade, parecia compensar uma dificuldade anormal de se relacionar com qualquer outra pessoa além de seu pai.

Cipriano era um velho amigo de Ângelo, ele e seu pai Daril, sempre o visitavam e presenciavam os talentos de Osíris, Ângelo confiava em seus amigos e procurava não exibir os talentos de Osíris para ninguém além deles, ele sabia que os outros iriam ridicularizá-lo por ser um coletor tentando se meter a transformador. Mas Daril e Cipriano ficavam impressionados com Osíris, eles até incentivavam Ângelo a não impedir seu filho de continuar com as invenções. Nos momentos em que Ângelo pensava seriamente em parar de ser conivente com aquilo, Daril o convencia do contrário.

– Não sei o que você vai fazer com isso – Dizia Daril – mas deixe o menino, ele tem um dom muito brilhante para ser sufocado.

– De que adianta? – Lamentava Ângelo – Um coletor se metendo a transformador é visto apenas como aberração neste lugar.

– Eu sei, mas você consegue imaginar um garoto com um talento desses sufocado assim? Não sei para que isso vá servir no futuro, se é que vai servir para alguma coisa, mas não sufoque esse talento no garoto, ele é um milagre e não uma aberração.

Ângelo ficava muito agoniado entre a razão e a compreensão, incentivar seu filho a continuar se distanciando dos hábitos mais normais era perigoso, os coletores tinham um papel a cumprir na colônia e isso nunca iria mudar, até os mais jovens precisavam trabalhar na extração de restos do mundo antigo enquanto mediam sua bravura. A aversão de Osíris em relação a essa realidade parecia irredutível. Tudo na colônia girava em torno de combates, vitórias e atos brutos de conquista. Embora as crianças não vivessem um clássico clima infância como nos tempos antigos, sua forma de encarar a realidade bruta e adulta, era o verdadeiro propósito de se estar vivo.

Torneios de totens, eram o entretenimento que representava bem o espirito daquele tempo, era comum em muitas colônias e não se sabe ao certo onde surgiu ou quem o difundiu, mas o famoso duelo com clavacs (um poderoso bastão de impacto), era cultuado por todos, e representava muito bem um espírito necessário de luta através do jogo. Osíris não conseguia se interessar nem mesmo totens, e um garoto tão diferente a ponto de não gostar nem mesmo disso, com certeza não seria bem visto pelos outros. A preocupação de Ângelo era saber que um dia, seu filho, preparado ou não, teria que enfrentar sozinho o mundo o qual tanto se distanciava.

Em Nísis, a veneração ao ideal militar de força e bravura, era como um culto religioso, tudo girava em torno disso, ninguém levava a sério, por exemplo, outros assuntos como a escassez cada vez maior de recursos, a história da humanidade, ou ainda os velhos problemas do sol, assuntos raros até mesmo entre os mais intelectuais. Os velhos problemas do sol, por exemplo, segundo algumas teorias, poderiam em poucos anos colocar a já fragilizada vida na terra em sérios riscos, mas ninguém queria falar sobre isso, a morte do sol, inclusive, já havia virado uma lenda chata há algum tempo.

Mas isso sempre aguçava a curiosidade de Osíris. Ter esses interesses, em uma época de outras necessidades momentâneas, era um terrível erro.

Ângelo, uma vez tentou sutilmente fazer com que ele perdesse o interesse em tecnologia, tinha em casa um clavac, uma espécie de bastão magnético formado por centenas de plaquetas que ao se movimentarem, determinavam seu tamanho, sua força molecular de impacto, era capaz de provocar estragos bem maiores do que o porrete aparentava. O clavac era uma ferramenta comum naqueles tempos e os mais avançados armas para o exército, até os guardiões RDs usavam versões gigantes desses bastões que podiam causar estragos inimagináveis.

A aplicação mais famosa de um clavac, no entanto era no famoso jogo de totens. Existiam times fortes que o duelavam, havia até um torneio muito badalado que mobilizava toda a colônia, exceto Osíris, é claro.

O jogo se resumia basicamente em dois lutadores que precisavam defender três totens de barro cada um. Além de proteger seus totens, o lutador precisava também derrubar a qualquer custo os totens protegidos pelo adversário, cada totem tinha cerca de um metro e meio e seu posicionamento era cerca de três metros na retaguarda de seu guardião. Assim que um jogador conseguia derrubar um totem adversário, a luta recomeçava.

Ângelo pegou outro clavac emprestado e resolveu tentar fazer seu filho pegar gosto por aquilo.

– Osíris, quero lhe ensinar uma coisa, você sabe o que é um jogo de totens?

– Já vi você jogando com Cipriano – respondeu Osíris com um olhar apático.

– É importante você aprender, todos os garotos jogam isso.

Osíris se esforçou para ter algum interesse.

– É assim, o bastão pode ficar em posição de vigília com aproximadamente um metro de comprimento ou se armar assim.

Osíris se assustou com as extremidades retráteis do bastão que se expandiram tornando ele uma vareta com quase dois metros.

– Como ele… fez isso?

– Ele é constituído de várias plaquetas curvas que se encolhem e se expandem deixando o centro oco.

– Quando ele… fica oco… não fica mais, fraco?

– Não, por que a força dele está na desintegração das moléculas e não só no atrito.

Bem, vamos lá, no jogo de totens os adversários ficam em um pequeno campo retangular, atrás de cada oponente ficam três totens que precisam ser defendidos a todo o custo, os oponentes, além de protegerem seus totens, precisam derrubar os totens que não são seus. Entendeu?

– Acho que sim.

Ângelo lhe entregou um dos clavacs.

–      Não é perigoso? – questionou Osíris, as pancadas… são fortes.

–      Fique tranquilo, aqui, nós estamos apenas simulando. No jogo, os lutadores usam roupas amortecedoras de impacto.

Tente passar por mim e destruir meus totens

Osíris ficou sem ação olhando para seu clavac, olhou para Ângelo e assim permaneceu.

– Vamos, meu filho! – Chamou Ângelo tentando empolgá-lo – Aquela é minha colônia e a outra é a sua, tente me atacar!

Osíris preparou seu clavac, se posicionou discretamente e ficou imóvel por um longo tempo enquanto Ângelo o chamava.

– Pai eu… não quero – disse Osíris lamentando muito.

Ângelo tentou ser discreto em sua frustração. Percebeu logo que aquilo não iria progredir muito.

– Tudo bem, tente pelo menos proteger os seus totens.

Osíris procurou fazer alguma coisa desta vez, tentando se aproximar dos totens de Ângelo que o impediu com leves pancadas em seu clavac.

Após algumas tentativas no mínimo desajeitadas Osíris foi diminuindo as tentativas. Não levou muito tempo para ele se encher daquilo.

Ângelo viu que não adiantava. Era como se mais nada fosse capaz de ocupar os pensamentos do menino além daquela sucata tecnológica que adorava juntar, Osíris nunca havia se interessado pelo jogo de totens e, provavelmente, só não o odiava mais do que ver os RDs ao vivo nos treinos de soldados.

Ângelo, assim como muitos moradores, se interessava em discutir e divagar sobre a tecnologia avantajados guardiões RDs, mas era apenas um passatempo, Osíris sempre teve pavor de ver RDs ao vivo nos treinos, era um trauma de infância, apesar disso, ele gostava muito de estudá-los nos arquivos, mas apenas nos arquivos.

Mesmo assim, um dia, Ângelo resolveu mais uma vez tentar estimular a interação de seu filho, conseguiu com Cipriano um joypad, uma espécie de videogame já em formato de controle. O artefato, no entanto, era tão velho, que já nem funcionava mais, mas Ângelo ficou otimista, ele sabia qual jogo o console carregava e por isso daria um jeito de concertá-lo. Pediu para Osíris dar uma olhada o que já lhe despertou algum interesse e, como previu, seu filho conseguiu fazê-lo funcionar. O jogo na memória do console, era um torneio com os mais diversos tipos de RDs, a projeção podia ser exibida nas paredes eletrônicas da casa com uma imagem que até assustou Osíris quando viu a os RDs virtuais em sua frente, o medo era o mesmo. Foi um pouco trabalhoso convencê-lo a pegar gosto pela coisa, mas desta vez Ângelo conseguiu. Com muito treino e insistência, logo Osíris já estava dominando as lutas de forma espantosa, era sempre assim, bastava o menino se interessar por algo que as coisas se tornavam surpreendentes. Ângelo, após algum tempo, não ganhava mais nenhuma luta, mesmo que tentasse exaustivamente.

Pelo menos virtualmente, Osíris conseguiu ter alguma semelhança com os outros, e isso deixou seu pai mais otimista, Apesar de ser tão diferente, o menino aprendia muito rápido as coisas e isso poderia lhe ajudar, quando começasse a participar do serviço de coleta junto com garotos de sua idade.

Aproveitando a empolgação de Osíris com o videogame, um dia Ângelo decidiu promover uma interação, trazendo alguns garotos para que o desafiassem no jogo. Ele erroneamente havia dito que Osíris era o melhor jogador da colônia e isso foi encarado como uma provocação.

– Osíris, esses garotos querem brincar com você. – Disse Ângelo surgindo do nada com um bando de garotos estranhos e nada amigáveis.

– Seu pai disse que você é bom na luta com RDs – disse um deles – duvido que seja melhor do que eu.

– Eu vou acabar com você – Disse outro garoto – e com todos vocês também, já estou até enjoado de ganhar nesse jogo.

Osíris odiou muito aquela ideia.

Uma das paredes da sala exibiu a grande imagem do jogo, dois grandes Robôs RD estavam em posição de combate. O garoto selecionou o tipo de luta no menu e um dos Robôs logo se posicionou para iniciar o duelo. Osíris ficou encarando a projeção quase sem reação. Havia entrado em um discreto estado de desespero com aqueles estranhos em sua casa e naquele clima de desafio agressivo, mal conseguiu se concentrar.

– Você não é bom? – Diziam os garotos durante as lutas – venha. Vou acabar com você.

A briga começou e o garoto não perdeu tempo, seu RD avançou com tudo para cima do RD de Osíris e foi lançando uma sequência de pontapés, Osíris tentou se manter firme em posição de defesa, mas logo se desconcentrou com a ovação dos outros e, no primeiro descuido, o oponente lhe deu um gancho que o derrubou para traz, Ângelo ficou frustrado, vendo seu filho lutar daquela maneira.

– Ele é um fraco! – Diziam os garotos sem o menor preocupação.

– Você é muito ruim nesse jogo – Dizia o oponente olhando para um Osíris que não tirava os olhos da imagem.

O nervosismo de Osíris com aquela situação não permitiu que ganhasse nada e Ângelo, que havia feito tanta propaganda do virtuosismo de seu filho, ficou com a cara no chão. Ele interrompeu a brincadeira que agora mais parecia uma sessão de tortura e pediu que os meninos saíssem.

– Acho que seu filho só é melhor do que você – disse um dos garotos provocando a risada dos outros enquanto iam embora.

Ângelo sentou ao lado de Osíris e tentou acalmar a tensão.

– Está tudo bem? – Perguntou.

Acho que agora sim – Respondeu Osíris com alívio.

– Você precisa se acostumar com essa situação, isso logo-logo vai ser muito comum na sua vida.

– Eu… não quero.

– Você não quer o que?

– Essas coisas.

– Mas essa é a vida normal, meu filho, o mundo é isso, não existe um lugar que não é assim.

– Você não… consegue mudar isso? – Perguntou Osíris ingenuamente.

Ângelo ficou se resposta por um instante e por fim fez apenas um frustrado “não” com a cabeça,

Para Ângelo, aquilo foi apenas uma prévia do quanto às coisas ainda seriam complicadas para Osíris no futuro.

Apesar daquele momento fatídico e do alerta de Ângelo, Osíris logo esqueceu o ocorrido e voltou ao seu pequeno universo de possibilidades e interesses completamente diferentes do que era comum.

Em todas as ruas, havia algo parecido com um emaranhado de cabos espalhados pelo chão, eram condutores magnéticos para a movimentação de um tipo muito comum de veículo, os populares T-flaps, um meio de transporte voador muito semelhante aos arcaicos segways, a diferença é que os T-flaps flutuavam, tinham uma haste simples com dois guidões e embaixo um apoio flutuante para os pés. Através das vias supercondutoras, era possível voar suavemente a alguns metros do chão em todas as partes da colônia, na região periférica onde Osíris morava, existiam poucas vias supercondutoras o que gerava sobrecarga e impossibilitava que todos usassem seus T-flaps ao mesmo tempo, os coletores eram sempre muito desassistidos. Aquela precariedade começou a chamar sua atenção.

– Pai, por que é tão difícil… usarmos nossos T-flaps aqui?

– Por que moramos na parte mais pobre da colônia – respondeu Ângelo – Há poucas vias por aqui, por isso, muitos aparelhos não funcionam, eles não conseguem sincronizar uma trilha magnética.

Osíris estudou um pouco daquele funcionamento baseado em magnetismo, mas logo mudou suas pesquisas se voltando para a nanotecnologia, já estava começando a imaginar algum tipo de independência do aparelho das vias.

Ângelo ficou até com medo do resultado e Osíris conseguiu mesmo criar o protótipo de um sistema flutuante independente que, em seu inicio, já conseguia sustentar alguns quilos.

Não era permitido em hipótese alguma o desenvolvimento de qualquer equipamento fora da classe transformadora, mas era difícil para Ângelo privar seu filho de fazer a única coisa que realmente lhe fazia bem.

Nessa época, Osíris Bahr já estava com onze anos, no ano seguinte uma nova etapa iria iniciar em sua vida, a coleta de recursos era um ofício que desde cedo todos os coletores exerciam e, além do trabalho nada leve, tanto para crianças quanto para adultos, a interação com os outros era primordial para uma boa convivência.

Ângelo apenas observava o talento do menino sem saber o que fazer, já que nada daquilo importava no lugar para onde seu filho iria. A sina de Osíris só poderia ser como a dele: tornar-se um coletor de recursos e gostar de tecnologia militar. Nada mais do que isso. Algo muito injusto para alguém tão talentoso e supostamente frágil.