Prólogo

por Daniel Amélio dos santos

Há muitos anos atrás, o mundo foi dividido em diversos países, esses países eram habitados por milhões de pessoas e todos viviam em relativa harmonia com o meio ambiente. A natureza se renovava de forma exuberante e proporcionava uma vida hoje, muito difícil de imaginar. Todo o conhecimento existente a respeito do Mundo Antigo, infelizmente é muito vago e confuso devido à dificuldade de interpretar os fragmentados registros centenários, mas algumas informações já foram levantadas a respeito desse passado tão longínquo. Sabe-se, por exemplo, que a preservação de recursos naturais nunca foi uma prioridade na história humana, mas no início do século XXI, o mundo começou a ficar preocupado com o que o meio ambiente ainda seria capaz de provir às necessidades humanas, desde as mais importantes até as mais fúteis.

O sistema econômico vigente na época, também já demonstrava sinais graves de desgaste, e essas preocupações começaram a mexer seriamente com o inconsciente humano.

Um fato importante também a respeito dos últimos anos antes das guerras apocalípticas, é sobre os estudos relacionados ao colapso do sol. Existia uma previsão de ordem científica, apontando que o sol, em quatro bilhões de anos, iniciaria um processo natural de extinção. Um erro grave já que tal processo iniciou-se de repente, contrariando todos os estudos e crenças.

Sabe-se muito pouco também sobre esse evento tão agonizante pelo qual passou o mundo na transição entre os séculos XX e XXI, ou quando ele começou exatamente, ou como em menos de trinta anos, o desespero humano destruiu pilares que a humanidade levou milhares de anos para construir.

É certo portanto que, nas primeiras décadas do século XXI, além das preocupações com uma possível escassez da natureza, um colapso repentino do sol colocou o mundo em estado de desespero, e o medo real da extinção da vida na terra, começou a tomar sua verdadeira forma. O sol começou a superaquecer de modo que desestabilizou o meio ambiente a ponto de comprometer seriamente o abastecimento de recursos naturais em inúmeras instâncias, um processo que levou menos de três décadas para se consumar e causou uma histeria global nunca antes vista.

Um fato curioso, inclusive, é que houve ainda um plano ambicioso para tentar amenizar a ameaça do sol. Unidos, alguns governos criaram uma estranha película ao redor da terra que, inclusive, está lá até hoje. Na época, seu intuito foi simplesmente amenizar a radiação nociva para que a natureza reestabelecesse, pelo menos parcialmente, seu funcionamento. Por algum tempo, a película amenizou as coisas, houve o que pode ser chamado de um retardo no processo de extinção da vida, os dias, desde então, foram tornando-se nublados em todo o planeta, enquanto a natureza não recuperou nem quinze por cento de sua força que, inclusive, voltou a diminuir, embora mais lentamente. Mesmo assim, nenhuma esperança ou algo parecido com isso, foi suficiente para conter o desespero humano que já se encontrava em uma espiral de destruição sem volta.

 

A verdade é que, ironicamente, antes de qualquer ameaça natural, o que de fato afundou a humanidade, foi o desespero humano diante da eminência do fim. Comunidades e países perderam completamente a sanidade, sucumbindo em guerras sangrentas muito antes do que todos imaginavam. Isso tornou a luta irracional pela sobrevivência, uma realidade que definiria o futuro do planeta.

Tudo acabou, muitos já tentaram e ainda tentam negar isso, mas naquele momento, o que se conhece hoje como Mundo antigo, extinguiu-se completamente. Leis, países e instituições se desmancharam como poeira no meio do desespero humano.

 

Muito pouco sobrou da velha civilização, uma terra árida e perigosa, um lugar condenado, ironicamente pobre de recursos naturais e rico em tecnologia, acessível a qualquer mente sensata ou inconsequente. Uma terra repleta de criaturas insanas, grupos armados e máquinas descontroladas, todos originados das mais sinistras experiências das últimas guerras. Todos lutando para sobreviver a qualquer custo. Os sobreviventes mais civilizados, levaram pelo menos cem anos para conseguirem se organizar em povoados mais resistentes, capazes de conter invasões e ameaças, alguns povoados que se uniram, após décadas de luta, conseguiram montar colônias mais seguras e organizadas, preparadas para sobreviver às ameaças. Enquanto isso, o mundo fora dessas colônias foi piorando a um estado deplorável, obrigando-as a viverem cada vez mais isoladas umas das outras. O desespero fez muitos seres humanos desgarrados, modificarem-se de tal forma, que perderam praticamente todos os seus traços de civilidade, mantendo apenas o necessário para uma sobrevivência brutal. Esses eram os chamados vulgos, a verdadeira escória humana, a imagem de um homem convertido em besta, incapaz até mesmo de falar, uma representação fiel do mundo pós-apocalíptico.

O território dos vulgos, ou tudo o que existia além das colônias, era conhecido como Terra Devastada, um outro mundo, perdido e caótico, repleto de ruínas de cidades mortas. Um lugar sem lei, moldado de acordo com as novas e destorcidas necessidades humanas.

Essa necessidade de sobreviver às ameaças, obrigou às colônias a se concentrassem massivamente em defesa e ataque, muitas estratégias e equipamentos foram desenvolvidos nesta época. A arma mais famosa e comum em todas as colônias, era o clássico Robô Dirigido, ou RD como era conhecido, essas máquinas com quinze metros de altura, contavam com agilidade, força e resistência descomunais. Se fossem bem controladas, poderiam destruir colônias inteiras como verdadeiros tanques humanoides. A eficácia de um RD, contudo, estava aliada a destreza do soldado em seu comando, todas as colônias tinham sua força especial de soldados designados para isso, e esses eram treinados pessoalmente pelo General.

A força de todas as colônias, sempre foi mensurada pela quantidade de RDs que detinham. Isso tornou essas máquinas indispensáveis, tanto na defesa quanto no assalto de outras colônias. A construção de um RD também era extremamente difícil, sua concepção, era a partir de inúmeras camadas de um raro metal com resistência muito superior, além de outros componentes muito peculiares que proporcionavam sua agilidade. Essas características tornavam os RDs, algo essencial para qualquer colônia sobreviver, muitas levavam às vezes, anos para conseguirem completar um único exemplar.

 

Todos os perigos da Terra Devastada, foram obrigando os colonos a não saírem do perímetro de suas colônias por qualquer que fosse o motivo. Toda a sua vida, era baseada no cotidiano de suas colônias, a necessidade de se comunicar com outros lugares era nula, e tudo o que sabiam sobre o mundo além dos portões, eram as histórias contadas por soldados guerreiros ou andarilhos.

Nenhuma criatura que representasse algum tipo de ameaça, poderia também em hipótese alguma, se aproximar do perímetro de uma colônia, sob a certeza de que seria dizimada sem hesitação. Apenas alguns andarilhos bem identificados podiam se aproximar dos portões com algumas ressalvas, já que sua característica de carregar informações de outros lugares era de grande valia em uma época de isolamento. Por muito tempo, os andarilhos foram o único meio de as colônias saberem o que se passava na Terra Devastada. Mentira ou não, suas informações a troco de alguma comida, eram sempre bem vindas.

Esse desconhecimento cômodo do mundo além das colônias, gerava uma consciência ignorante dos verdadeiros problemas que um planeta doente ainda seria capaz promover.

Mas este foi o mundo onde viveu Osíris Bahr, um mundo no qual ninguém, nem mesmo ele imaginou o quanto ainda iria mudar.