CINZAS E MUDANÇAS

por Daniel Amélio dos santos

 

Nísis vivia um momento muito otimista já há algum tempo. Às vezes isso acontecia com algumas das sofridas colônias baixas, os ataques bem sucedidos a outras colônias ou a capacidade de montar uma frente de defesa preparada para sufocar a maioria das invasões, possibilitava que uma colônia baixa tivesse mais tempo e recursos para se dedicar ao seu desenvolvimento, Nísis teve essa oportunidade algumas vezes em toda a sua existência, e Osíris chegou a presenciar uma delas.

Com uma sequência de invasões sufocadas e o aumento do poderio militar através de equipamentos agregados da vitória em Bêni, Nísis provocou euforia nesta época, o êxito era tamanho que até novos RDs acabaram reforçando defesa.

Como já foi dito, havia uma convenção bem definida para os procedimentos de ataque e defesa nas colônias: os RDs invasores nunca chegavam atacando a cidade, apenas esperavam os guardiões, caso não houvesse luta por qualquer razão, os recursos eram apenas levados sem ataque, os veículos de transporte de cargas também nunca eram atacados antes dos RDs.

Apesar das convenções, existia também um tipo de exploração mais predatória entre as colônias, essa prática consistia em pilhagens mais seguidas e intensas caracterizando um tipo de domínio, era uma pratica arcaica e praticamente descontinuada pelo risco de extinção das colônias exploradas e consequentemente de uma fonte menos trabalhosa de recursos. Resumindo, não era estratégico, muito menos inteligente provocar a extinção de uma colônia.

A arrogância dos militares de Nísis, liderados pela pujança do General Martins, ignorou completamente essa visão e esgotou com os recursos de Bêni, uma colônia baixa mais ao sul, a exploração intensa e incessante extinguiu completamente a frágil colônia. Apesar de ter ficado mais forte com os recursos agregados, mesmo depois de extinguir Bêni, a empolgação que essa desastrada ação causou em Nísis, incentivou a invasão predatória em outra colônia.

Asic era uma colônia localizada alguns quilômetros ao norte de Nísis, pouco se sabia sobre ela, já que era tão fechada, quase não se relacionava com andarilhos o que dificultava algum tipo de informação mais precisa, tudo ficava no campo da teoria. Mas era sabido que Asic tinha uma organização peculiar, raramente praticavam pilhagem em outras colônias o que causava uma falsa impressão a seu respeito, os andarilhos suspeitavam que Asic fosse uma colônia frágil por não invadir outras colônias, eles só não sabiam que algumas tentativas de invasão foram pacificamente sufocadas, quando os invasores se deparavam com seu real poder.

General Martins e seus militares ignoraram qualquer teoria e se muniram de toda a arrogância e aparato bélico possíveis rumo a Asic. A intenção desta vez, era ainda mais arriscada do que se pensava, a ideia mesmo, era anexá-la a Nísis.

Ao se deparar com os guardiões da bela e misteriosa colônia, General Martins levou um susto. Era cinco invasores contra seis guardiões, uma defesa além do que imaginava, para quem achava que estava indo para resolver as coisas de maneira rápida, aquilo estava fora do escopo.

Mesmo assim, Nísis foi com tudo.

Foi uma luta sangrenta e desastrada que acabou com a cidade em pouco tempo, acabou com guardiões e acabou também com os invasores. Uma investida totalmente estúpida que enfraqueceu Nísis como nunca. Em questão de semanas, as investidas seguidas, juntamente com ataques a distância, tanto de um lado quanto de outro, provocaram estragos profundos nas duas colônias. Nísis acabou levando a melhor, mas não foi tão melhor assim, além das baixas civis e militares, muitos recursos foram destruídos e o poderio bélico foi seriamente comprometido.

Se Nísis fosse à única colônia do continente e tivesse todo o tempo necessário, sua recuperação seria bem possível, mas as coisas não funcionavam assim.

De repente, Nísis passou de colônia próspera a colônia em recuperação enquanto Asic, em estado terminal provia o que sobrou de seus recursos com dificuldade já que pouco podia se aproveitar após o estrago geral. Grande parte dos moradores se espalhou e apenas alguns poucos ficaram para ajudar nesse período.

Pouco tempo depois, os andarilhos já haviam espalhado a notícia de que Nísis estava em um momento de recuperação. Nesta época, seis RDs estavam parcialmente preparados para o combate, mas ainda precisavam de muitos ajustes, juntando todos os robôs ainda em manutenção, não se chegava a ter o potencial de dois RDs em ótimo estado.

Uma invasão estava a caminho, essa foi à única notícia, não se sabia ao certo de onde poderiam vir os invasores já que Nísis, em seu momento de fragilidade e sua boa quantidade de recursos chamava a atenção de todo mundo.

Provavelmente não era uma pequena invasão, todos sabiam que Nísis, apesar da recuperação, estava com um bom contingente de guardiões e, portanto os invasores viriam preparados.

 

Era um dia tranquilo e para Osíris era o melhor dia da semana já que estava de folga da coleta, estava distraído tentando aprimorar seu T-flap com aquela tecnologia de flutuação independente.

De repente, ele se assustou com um barulho de uma sirene, antes que tivesse qualquer reação, Ângelo apareceu tão repentino quanto à sirene.

– Ei Osíris! Venha comigo! – chamou assustado – Venha! Venha logo!

– O que? – Assustou-se Osíris tentando compreender a expressão em seu rosto. – O que aconteceu? – Insistiu.

– São RDs, meu filho! – Disse Ângelo tentando falar calmamente a centímetros de seu rosto – Acho que eles são em muitos!

Osíris o olhou assustado e já foi colocando o que podia em uma mochila, discretamente a apreensão de Ângelo crescia.

– Osíris, você tá aí ainda? Vamos!

O clima estava tenso, muito mais tenso do que em outras invasões. Ângelo levou Osíris para uma parte mais segura da casa onde ainda era possível acompanhar o que acontecia. Às residências já eram preparadas para ataques, ficavam afundadas na terra com um tampão de rocha e metal bem resistente, mas Ângelo podia acompanhar a luta no porão da casa através das paredes integradas que projetavam imagens lá de fora.

– Olhe só isso! – Comentava Ângelo tentando distrair sua visível tensão e a de Osíris também – Essas máquinas são legais, não acha?

Osíris odiava RDs, era uma tentativa ingênua de Ângelo, aliviar o seu medo. E naquele momento, nem mesmo Ângelo conseguia esconder a tensão.  Eram pelo menos sete RDs invasores, três em terra e quatro no ar, uns duzentos metros acima, tudo isso contra uma colônia frágil, governada por militares pra lá de arrogantes.

– Acho que eles podem ser de Sentrum.

Sentrum? – Perguntou Osíris.

– É a torre central. Um andarilho comentou esses dias que os RDs de Sentrum são os mais avançados hoje.

– Nossos RDs não… estão em manutenção? – perguntou Osíris.

– Estão quase prontos – disse Ângelo querendo acreditar que não seria estúpido o exército enfrentar uma invasão no estado em que estava.

General Martins ordenou o acionamento de seis RDs para o combate, junto com os grandes robôs estavam seu ego e sua empolgação cega. Mesmo sabendo que os guardiões ainda não estavam preparados.

Dois robôs estavam próximos do ideal, mas os outros três ainda estavam com menos de cinquenta por cento da capacidade e o mais antigo ainda estava velho para certas batalhas.

Sete RDs invasores chegaram aos portões de Nísis e aguardavam a frente de defesa aparecer seguindo o procedimento padrão.

Ângelo observava assustado com tantos robôs, nunca uma invasão havia sido tão robusta e isso, independente do desfecho, era muito preocupante, a devastação em grande ou pequena escala na cidade era quase certa, Osíris estava tenso, procurando evitar olhar para fora, tudo o que mais queria era que aquilo acabasse logo, demorou até para perceber que seu corpo tremia como vara verde.

Ângelo viu o pavor contido de seu filho tenso, tentando evitar olhar para a projeção e sentiu seu coração apertar.

– Vai ficar tudo bem – Disse em mais uma tentativa rasa da aliviar o medo de Osíris.

– Quando? – perguntou Osíris, crente que seu pai soubesse.

Ângelo não soube o que responder por um instante.

– As coisas ainda vão ser melhores algum dia. – Respondeu olhando fundo nos olhos tensos de seu filho.

Tentando se concentrar em qualquer outra coisa para amenizar seu pavor, Osíris reparou com mais atenção uma extensa e profunda cicatriz na mão de seu pai que começava na palma e subia até parte do braço, ele conhecia aquela cicatriz e lembrava inclusive um pouco de sua origem. Uma lembrança turva e com poucos detalhes.

Estava no meio de uma confusão, entre destroços e entulhos espalhados pelo chão, poucos metros à frente, um vulto gigante se movimentava como um monstro medonho que poderia esmagá-lo no instante seguinte, o gigante pareceu se esbarrar no que ainda restava das frágeis paredes em volta, e provocou a queda de alguns pedaços de entulho, um deles veio em sua direção, mas antes que ele percebesse, Ângelo apareceu e evitou que o atingisse o protegendo e com isso, cortando a mão.

 

Osíris, assustado, retornou ao presente com o barulho da tropa de soldados guardiões surgindo e atirando em direção aos invasores. Nísis realmente estava disposta a enfrentar a invasão. Cinco RDs guardiões vieram logo atrás, o apoio dos militares naquele combate entre RDs era tão irrelevante quanto à presença de Ângelo e Osíris assistindo de longe.

Três guardiões se atracaram com três invasores agarrando seus braços para tentar derrubá-los, o barulho de metal em colisão era insuportável. Ao mesmo tempo, tiros em vão vinham dos militares ao redor da luta, esses eram pisoteados como insetos. Outros dois guardiões trocavam tiros sem parar com os invasores. O maior número, a agilidade e o potencial bélico avançado dos invasores colocavam os guardiões em séria desvantagem.

Na primeira oportunidade, dois invasores sem oponentes diretos, ajudaram a mobilizar dois guardiões pelas costas. Outros dois guardiões foram destruídos com uma chuva intensa de tiros magmáticos perfurantes que os incendiavam instantaneamente de dentro para fora com uma massa incandescente.

Nenhum RD em Nísis era controlado remotamente, assim, os soldados acabavam perdendo a vida na derrota de suas máquinas.

O nervosismo de Osíris parecia aumentar sem que percebesse, ele parecia saber onde aquilo iria acabar. Segurando a mão de Ângelo, ele levantou-se instintivamente querendo sumir, Ângelo não saiu do lugar e concentrado na luta o abaixou novamente.

– Fique calmo, meu filho – Disse tentando tranquiliza-lo – Eu estou aqui. Não vou me afastar de você.

Um dos invasores levantou um guardião agonizante no chão pronto para arremessá-lo.

Os olhos de Ângelo cresceram. Osíris se assustou e fixou apenas em seu rosto.

O Guardião foi jogado.

Ele se aproximava como um meteoro na direção onde estavam.

Foi tão rápido que Osíris conseguiu apenas segurar o fôlego.

De repente, a visão do passado se repetiu.

 

Foi rápido.

 

A casa já estava completamente destruída e o guardião estava no buraco entre os escombros onde ela estava a pouco, Ângelo e Osíris, atordoados, conseguiram escapar milagrosamente. Estavam agora vulneráveis entre as pernas do monstro de metal, o Invasor pulou sobre ele violentamente, dois RDs estavam ali agora.

Osíris foi tomado por um pavor que amoleceu seu corpo, essa foi sua última visão.

 

A névoa era espessa, muito pouco podia se ver além de alguns metros dos olhos, tudo girava e nada fazia sentido, tudo parecia distorcido, a audição e o raciocínio estavam confusos. Osíris ainda estava deitado no buraco repleto de entulhos onde há pouco estava sua casa, a sua volta a visão da destruição foi tomando foco, lá em cima era possível ver as pessoas andando de um lado para outro, alvoroçadas.

Tales andava por ali sem rumo com um olhar perdido e o rosto tão pálido quanto sujo. Ao se aproximar da borda do buraco onde estava Osíris, ele pulou imediatamente para ajudá-lo.

– Cara! Você está legal? Você tá bem? Você está melhor?

– Eu não sei – respondeu Osíris tentando juntar os cacos de sua memória.

– Está tudo destruído, tudo no chão, tudo acabou. – Disse Tales com um olhar perdido – Os caras começaram a lutar, eu vi uma confusão e agora tudo ficou assim – Disse Tales para si mesmo sem perceber. Osíris o olhou assustado, olhou lentamente tudo a sua volta e não encontrou mais ninguém além de Tales.

– Meu pai está ajudando lá fora? – Perguntou querendo acreditar em sua suposição.

Tales ficou sem reação por um momento.

– Não, não está não – Respondeu com cautela – seu pai deveria estar aqui, não devia? Devia estar perto daqui, machucado ou ajudando você primeiro.

Osíris disse não com a cabeça não querendo aceitar o que interpretou nas palavras de Tales.

– Ele… tem que estar em algum lugar – Insistiu olhando a sua volta.

Um homem desesperado surgiu na borda do buraco.

– Saiam daí! – Gritou – Há duas bombas de magma expansível ali atrás!

Tales pegou no braço de Osíris e foi se retirando.

– Eu preciso encontrar o Ângelo – Insistiu Osíris não querendo sair.

Três homens pularam no buraco e os arrancaram do meio das cinzas, não houve tempo, uma massa química de magma em chamas começou a se alastrar em questão de segundos.

As duas bombas de magma se transformaram em uma bola de chamas incandescentes que duraram três segundos, tempo suficiente para que tudo o que estava ali se reduzir a um monte de cinzas, tudo foi incinerado em um segundo diante de Osíris que ficou paralisado olhando um fogo aterrorizante consumir tudo sem sobrar nada, ele olhou para Tales que já o olhava assustado esperando sua reação e procurou manter a calma.

– Ele deve ter saído para… ajudar os outros – Disse Osíris querendo acreditar que Ângelo ainda estava por ali.

Tales não sabia o que responder, sabia apenas que não fazia o menor sentido Ângelo estar em algum outro lugar daquela colônia que não fosse aquele buraco em chamas.

Osíris entrou mancando no meio da multidão alvoroçada a procura de Ângelo, olhava em todos os lugares, entrava em becos, subia nos morros de entulho e olhava com paciência para todas as direções esperando algum sinal.

 

Nísis estava devastada e os invasores ainda levaram tudo o que conseguiram carregar. Os RDs guardiões que sobraram e ainda podiam ser aproveitados foram levados também e os que restaram não passavam de uma pilha de sucata despedaçada. Um cheiro de morte e angústia como nunca se viu tomou a colônia.

Tudo mudou, a euforia do presente com futuro próspero e otimista foi destruída pela desgraça implacável. Ninguém esperou uma queda tão grande, nem mesmo nos mais terríveis pesadelos.

Muitos morreram e poucas casas ficaram em pé, nas ruas, a quantidade de entulhos chegava a atrapalhar a passagem. Muito pouco do que sobrou podia ser reaproveitado, os olhares assustados das crianças eram completamente ignorados por adultos que ainda tentavam entender a cidade esfacelada diante de seus olhos.

Além de todo aquele infortúnio, Nísis estava agora vulnerável também a qualquer ataque, fosse de outra colônia ou de qualquer grupo de vulgos oportunistas.

Tales apenas observava lamentando enquanto esperava Osíris retornar de sua busca delirante por Ângelo, estava desolado procurando apenas sentar em algum canto.

Novas explosões aconteceram em outros pontos da colônia.

– São bombas de magma programadas – Gritou uma mulher com os olhos arregalados – elas podem estar em qualquer lugar.

Um senhor sujo e machucado apareceu por ali andando no meio da multidão enquanto falava palavras sem sentido.

– Levaram meu filho, levaram eles, levaram tudo!

Tales tentou ignorar, mas acabou incomodado com a insistência desequilibrada do senhor em falar a mesma coisa, logo percebeu que era o velho Daril, o pai de Cipriano que como muitos ali acabara de perder tudo, inclusive seu filho, seu rosto estava quase irreconhecível e sua casa estava reduzida às cinzas. O pai de Cipriano não passava agora de um velho em estado de choque falando coisas sem sentido no meio de uma colônia em convulsão, não parava de sussurrar aquelas palavras enquanto apontava para lugar algum.

– Levaram eles! Eu vi.

Tales lamentou a perda de sanidade do pobre homem e lembrou-se de Osíris que ainda estava em algum lugar delirando também a procura do pai.

 

A noite já estava chegando, poucos focos de luz ainda funcionavam, Osíris voltou exausto, mancando um pouco mais e com olhar vazio. Tales ainda o esperava.

– Eu não encontrei – Disse curvando corpo exaurido.

– Vamos descansar um pouco – sugeriu Tales – Vamos deitar, sentar, melhorar. Todo mundo já está fazendo isso.

– Será que ele está com o Cipriano? – Perguntou Osíris.

– O Cipriano também… Não está mais aqui – Respondeu Tales com um nó na garganta – O pai dele surtou completamente.

– Onde será que… eles estão? – Perguntou Osíris pensando alto.

Tales suspirou fundo, observava aquela negação sem saber como lidar com aquilo, à realidade estavam mais do que clara e Osíris parecia estar há um passo de ficar como o velho Daril.

– Eu vou para minha casa – Disse despencando no buraco onde esteve sua casa, imaginado que sua casa ainda estava ali.

Tales tentou impedi-lo.

– Não, Osíris, aí não! Não tem nada aí! Não tem nada nesse buraco.

Ambos caíram no buraco e ficaram cobertos de fuligem negra.

– Mas aqui é minha casa.

– Sua casa não existe mais, não tem nada mais nesse lugar, só cinzas – disse Tales – vamos lá para a minha casa. Ainda sobrou um pedaço dela, um quarto, uma sala talvez…

A área onde estava à casa de Osíris e mais uma dezena de casas foi dizimada com a luta dos RDs, muitas pessoas nesta região acabaram esmagadas e incineradas.

Tales morava em uma república e seus três companheiros acabaram morrendo enquanto tentavam acompanhar o ataque mais de perto, por muito pouco ele não morreu também. Osíris teve abrigo no pouco que restou da casa de Tales, ele nunca havia estado ali, mas com certeza naquele momento ali era o lugar mais seguro para ele em toda a colônia.

O mundo de Osíris Bahr desmoronou por completo, mas essa realidade não foi digerida facilmente, em momento algum ele conseguiu sentar e chorar com algum sentimento de perda, mas seu peito parecia uma bomba pronta para explodir Além de sua cidade, sua casa, seu pai e qualquer elo mais seguro com o mundo exterior desapareceram por completo.

Na colônia, a prioridade indiscutível agora era reconstruir pelo menos um dos RDs e com ele garantir um mínimo de defesa contra possíveis ataques.

Nísis nunca esteve tão próxima da extinção em tão pouco tempo, e mais difícil do que reconstruir a colônia agora era manter a estabilidade mental de seus habitantes que se antes já era instável e agora estava no limite.

Ao encontrar um canto na casa de Tales, Osíris se acomodou e ali ficou tentando se passar quase despercebido, seus olhos eram perdidos e seus pensamentos se debatiam tentando lidar com a nova realidade.

Osíris não parou com suas atividades, mas em qualquer oportunidade, seu desejo era de se isolar. Tales, dentro de suas limitações, tentou ser paciente, embora não soubesse lidar direito com aquilo. Osíris se fechava em seu canto tendo o silencio como seu refúgio mais seguro, às vezes ficava durante horas sentado em algum morro alto de entulhos olhando envolta como se Ângelo fosse aparecer de algum lugar contando alguma história absurda, poderia ser qualquer história, ou nenhuma talvez, contanto que aparecesse, mas isso nunca acontecia. Foi muito difícil lidar com uma angústia que parecia nunca mais ir embora.

Tales sempre tentava envolvê-lo no cotidiano da colônia, mas era muito difícil convencer Osíris a sair ou fazer qualquer coisa, até com seu principal passatempo que era ficar mexendo com sucata ele parou por completo.

– Cara, está errado, tudo errado, não é assim, você tem que reagir. – Disse Tales uma vez. – Tem que levantar, tem que viver. Abra esse peito, diga alguma coisa, nem que você chore berrando, mas faça alguma coisa. Eu tenho medo de imaginar o que tem guardado ai dentro.

– Estou tentando.

– Sabe aquela invasão que aconteceu quando você tinha dois anos? – perguntou Tales – aquela que arrasou metade de Nísis e quase mandou agente para o inferno? Eu perdi meus pais nela, perdi os dois, e desde então meu sonho é ser um militar e destruir tudo o que existe fora dessa colônia, acabar com tudo. Você precisa sentir ódio, tristeza, vontade, qualquer coisa, mostre isso. Vamos.

– Eu não… sei como fazer isso.

 

Assim como a vida de Osíris, o cotidiano em Nísis precisava retornar à sua normalidade. Mais do que nunca a coleta era muito importante agora para repor os recursos perdidos. A colônia estava carente de tudo e trabalho era o que não faltava.

A filha do General Martins voltou a se aproximar pouco a pouco de Osíris e assim como antes, ficava o dia todo lhe fazendo perguntas escondido de capitã Cassia, Osíris falava bem menos do que antes, mas gostava da presença de Ester Martins por ali, mesmo agora que ninguém tinha cabeça para importuná-lo, o ânimo despretensioso da filha do general lhe fazia bem.

Uma vez, ela o parou no meio do caminho enquanto voltava para casa.

– Ei, eu consegui isolar um conjunto de moléculas que se proliferam pelos músculos e os amolecem por algumas horas – disse empolgada.

– Ah, é – Osíris nunca estava muito a fim de conversar, mas quando menos percebia, já estava conversando.

Como eu faço para transformar isso em um concentrado sólido?

– Manipulando camadas – respondeu Osíris

A insistência de Ester logo começou fazer Osíris abstrair suas insistentes angústias enquanto lhe dava dicas. Os sermões de Tales também foram pouco a pouco sendo mais assimilados.

 

Capitã Cássia começou a se incomodar com aquela aproximação entre a filha do General e os reles coletores. Um dia, Ester foi chamada para um conversa.

– Ester, você não está fazendo o que foi designada para fazer. – disse capitã Cássia com rispidez. – Sua obrigação na coleta é me auxiliar a coordenar os coletores e , no entanto, o que eu vejo é você trata-los como amigos.

– Eu não sou igual ao meu pai – disse Ester – tenho outros métodos de fazer as coisas.

– Se você não pensa como o general Martins, isso é um problema.

– Não é não.

– É sim – disse Capitã Cássia sem lhe dar espaço para discussão. – Independente do que você pense ou imagine como deve ser o mundo, o Chefe maior me designou para uma missão com a filha dele, e eu não posso decepcioná-lo, você me entendeu?

Ester ficou quieta, Capitã Cássia prosseguiu. – Caso, ela não consiga cumprir com que foi designada para fazer, eu serei obrigada a relatar isso para o General Martins.

– Tudo bem – Ester achou melhor não discutir, apesar de ser a filha do general, se insistisse em discordar, isso afastá-la da única coisa que gostava de fazer naquela colônia.

Diante daquela marcação na coleta, Ester descobriu o caminho e começou a ir escondida até onde Osíris morava, era a única maneira de conversar sobre aqueles assuntos interessantes e o ver fazendo coisas legais com sucata. Ester chegou procurando não ser notada, já que militares raramente andavam naquela região, mas não conseguiu ser muito discreta, todos ficaram admirados de vê-la por aquelas bandas.

– É a filha do General! – Diziam quase em posição de reverência, Ester não gostava de reverências. Achava aquela pompa, uma tremenda perda de tempo.

Tales foi ver quem estava ali e tomou um susto.

– É você mesma? Cara, a filha do General na minha casa!

– O Osíris mora aqui com você?

Tales sentiu sua espinha gelar novamente, não conseguia entender o que sentia quando via aquela menina, com certeza era algo que ia além de mera reverência.

– Sim, somos como irmãos agora, pode falar comigo – disse Tales tentando desastradamente ser solicito – eu e ele somos a mesma coisa, eu, na verdade, cuido dele, eu o protejo, eu sou praticamente um militar.

– Ah é? – disse Ester tentando segurar o riso.

Tales sorriu achando que estava arrasando.

– Eu posso te ajudar, conte comigo, é só pedir que eu vá até o fim do mundo, se você precisar e…

– Eu só queria conversar com o Osíris – disse Ester tentando ser discreta.

– Tudo bem – disse Tales tentando desajeitadamente ser a pessoa mais cortês do mundo – mas pode contar comigo se precisar.

– Pode ser lá dentro?

– Claro, com certeza – disse Tales assustado – Pode mesmo, nós temos NUTs, você está com fome?

Osíris também se assustou ao ver a filha do general ali.

– Ester Martins quer falar com você – disse Tales – não fique aí encolhido.

– Na coleta é tão difícil conversarmos – disse Ester para Osíris – Capitã Cássia fica marcando em cima, acho que ela não vai muito com a sua cara.

– Eu sei.

– Mas eu ficava admirada com o seu talento, conheço muitos cientistas da classe coletora que às vezes levam anos para fazer o que você faz em instantes.

– Ele faz que tipo de coisa? – Perguntou Tales.

– Eu não vi mais ele fazendo nada, mas até um tempo atrás ele fazia qualquer coisa com aquela sucata que os outros recolhem.

– Ah é? Então nosso amigo não faz o trabalho de coleta…

– Ele faz, mas o talento dele é bem diferente.

Osíris e Ester ficaram conversando sobre as possibilidades de transformar moléculas em um projétil sólido, Tales ficou em volta se metendo sempre que julgava possível, Ester sorria para ele tentando ser discreta, achava engraçado aquele sujeito inquieto falando sem parar. Neste dia começou a nascer uma amizade entre os três.

Tales viu que o caminho para Osíris era aquele mesmo, ele precisava voltar a explorar sua própria capacidade de criação, já que isso, era a única coisa que poderia abstraí-lo daquele sentimento angustiante.

 

Um dia, Tales juntou toda sucata que julgou interessante, colocou em uma caçamba com rodas e levou para casa.

– Pegue – disse empurrando a caçamba para Osíris – eu sei que você gosta de mexer com essas coisas. Faça alguma coisa com isso, qualquer coisa, mas saia desse buraco, já deu, chega. Parou!

Até mesmo Osíris se espantou com sua reação à sugestão de Tales, embora tenha levado alguns dias para começar a mexer naquelas peças, sua mente logo começou a criar possibilidades difíceis de evitar. Era difícil não pensar, sua curiosidade sobre as coisas sempre prevalecia.