AQUELE MENINO ESTRANHO

por Daniel Amélio dos santos

Quando fez doze anos, Osíris Bahr foi obrigado a ingressar no serviço de coleta de recursos. Nada pôde ser feito para evitar isso, era um procedimento natural e obrigatório para a classe coletora. Osíris até então nunca havia parado para se preocupar com tal compromisso e, para ele, foi um susto ter que enfrentar o mundo daquela maneira, Ângelo, por sua vez, já vinha perdendo noites de sono ha pelo menos um ano, a última e também única experiência de interação que seu filho havia vivido, foi o frustrante dia do confronto no videogame, naquela desastrada competição.

 

Osíris começou na separação como vários outros garotos e garotas de sua idade, todos os iniciantes começavam na separação manual, enquanto os garotos mais velhos, já se incumbiam da extração de materiais leves. Além de separar os materiais coletados, todos ali também tinham regularmente com uma chefe militar, uma aula com assuntos gerais ligados a história geografia e defesa.

Todos iniciavam empolgados o trabalho de coleta, era empolgante também demonstrar o bronco espirito de competição e bravura, todas as crianças respiravam isso, sonhavam erroneamente em ser militares algum dia e procuravam sempre se auto-afirmar umas perante as outras.

Osíris, em compensação, chegava ao seu posto de trabalho e procurava chamar a atenção o menos possível, nem olhava para os lados, procurava não fazer contato visual com ninguém e, mesmo assim, não demorou muito para que os outros garotos começassem a perceber a diferença daquele estranho que não se apresentava, tampouco se relacionava com alguém. Todos acharam muito esquisito, o normal era qualquer garoto chegar e já tentar se afirmar perante o grupo, isso garantia algum respeito, na maioria das vezes um novato até desafiava alguém para um confronto corpo a corpo ou de totens. Não participar dos grupos era algo inaceitável, essa era a natureza comum entre os mais novos que tentavam sempre demonstrar bravura ou força em suas atitudes.

Alheio a tudo isso, Osíris esperava apenas à hora de voltar para casa para ficar bem longe daquele clima.

 

Capitã Cássia era a coordenadora da coleta na ala mais jovem, era uma militar alta e forte com um rosto carrancudo, capaz de intimidar qualquer um, ela conseguia também ser tão arrogante e ríspida quanto os outros de sua classe, sua missão era transmitir algum tipo de disciplina e esclarecimento aos coletores, enquanto estes cumpriam com seu trabalho, todos gostavam de ouvir histórias sobre um passado distante e difícil de imaginar, já que tudo funcionava tão diferente.

Capitã Cássia começou.

– Bem. Hoje a aula tratará da estrutura do mundo antigo, que funcionou por algumas centenas de anos, mas como tudo no universo, se desgastou e sofreu sérias transformações.

Não parem seu trabalho enquanto eu falo. Embora vocês sejam coletores, eu acredito que sejam plenamente capazes de trabalharem e ouvirem ao mesmo tempo.

Vocês entenderam? – Perguntou encarando Osíris, que por azar estava parado ouvindo muito atento. Ouvir as aulas era a parte menos dolorosa de se estar longe de casa naquele lugar insuportável.

Capitã Cássia começou.

Tudo o que sabemos sobre o mundo antigo, vem sendo desenterrado nos últimos anos em pequenos fragmentos muito deteriorados, algo difícil de juntar e formar uma ideia realmente clara de como era a vida naquele tempo. Tudo é muito vago e teórico, sabemos muito pouco sobre a vida que os antigos levavam e, talvez nunca saibamos totalmente como eles viviam, mas alguns documentos importantes foram descobertos agora, um material que estudei muito e que pretendo dividir com vocês.

Descobrimos que, até meados do século XXI, existiram dois sistemas econômicos. Um deles era baseado na coletividade e o outro era baseado no capital, ambos deram errado – nasceram belos e cheios de defeito, mas se extinguiram mais problemáticos ainda, o primeiro tentava tratar a todos como animais de abate, havia certo romantismo de igualdade que na prática não prestava para nada, isso além de promover alguns falsos lideres privilegiados não menos patéticos do que qualquer outro infeliz sob o regime. Resumindo, a beleza deste sistema, estava na teoria, quem não o vivia, sonhava com ele como se ele fosse a grande solução para a vida, mas essa besteira de que todos eram iguais caiu por terra em poucas décadas.

E existiu também um sistema baseado em capital, este durou quase trezentos anos e foi à definição mais precisa da sociedade moderna, e também sua ruína. Ele era basicamente pautado no acúmulo de riquezas, as pessoas tinham liberdade para acumular toda a riqueza que fossem capazes. Existiam as normas e leis, mas havia diversas brechas e formas para burlar isso. Assim, muitos conseguiam atropelar o que estivesse no caminho, tudo em nome do acúmulo. Vejam, é difícil explicar esse termo nos dias de hoje, mas quando eu falo riqueza, é algo como uma quantidade de recursos milhões de vezes maior do que alguém realmente precisa, essa pessoa guarda tudo para si mesma e ninguém pode contestá-la.

–      Mas ninguém pilhava essas pessoas? – alguém perguntou.

–      Não sei – respondeu Capitã Cássia – mas até onde vi, esse poder protegia essas pessoas como acontece hoje com as cidades torre.

– E o mundo tinha tantos recursos assim? – Perguntou outro coletor.

– Pelo jeito sim, porque o acúmulo de riqueza se tornou prioridade na vida da maioria das pessoas, todo o resto ficou secundário, isso incluí a própria preservação do planeta, nada importava mais do que acumular, pode parecer um absurdo para nós hoje em dia, mas desperdiçar irracionalmente já foi algo natural, este sistema funcionava como uma besta irracional e incontrolável. Não havia espaço para uma evolução sustentável.

Osíris não via a hora de ir embora, mas as aulas de Capitã Cássia eram interessantes.

Além disso, a única coisa que realmente gostava de fazer durante a separação de materiais, era manusear as peças legais que passavam por suas mãos, sua imaginação ia longe com qualquer sucata um pouco mais conservada, algumas já eram logo reconhecidas devido aos seus estudos nos arquivos de Ângelo, Osíris perdia um tempão manuseando aquela sucata, às vezes chegava a juntar pilhas de peças e objetos estranhos em sua mesa. Ao mesmo tempo, sua comunicação com os outros ficava muito próxima de zero, essa natureza começou a gerar reações incômodas. Os coletores que trabalhavam por ali sempre lhe faziam perguntas incômodas e invasivas.

– Você não gosta de falar? – Perguntavam.

– Por que você não conversa.

– Acho que ele é doente – afirmavam sem o menor tato.

– É verdade, ele só fica mexendo nessa sucata, olha só a bancada dele.

Osíris procurava ignorar, fazia de conta que não era com ele, e sua curiosidade com os materiais permanecia, certo dia, um pedaço de clavac passou por ali, eram algumas plaquetas ligadas magneticamente que formavam um pedaço do bastão e se recolhiam em um pequeno rolo incompleto. Osíris começou a manuseá-lo tentando entender seu funcionamento, logo ele compreendeu que o magnetismo circulante entre as partes era inteligente e poderia ser manipulado.

– Ei! – chamou um dos coletores – o que você está fazendo?

Osíris olhou preocupado e incomodado com a intromissão.

– Você vai atrasar a coleta – disse uma menina ali perto.

– O que ele está fazendo? – Perguntou outra menina.

– Ele fica olhando as peças e tentando montar coisa,.

– Se a capitã descobrir que você faz isso, ela vai te pagar– disse a menina.

Osíris não sabia nem o que responder.

À medida que a fama de menino esquisito crescia, a lentidão de Osíris era mais notada.

Logo todos começaram a implicar com seu baixo rendimento na coleta o que complicava seu time. Capitã Cássia logo que percebeu isso, resolveu conversar de perto com ele.

– Qual é o seu problema? – perguntou para um Osíris mais intimidado do que nunca, – os coletores que trabalham próximos a você já estão incomodados. Você acha que está tudo bem?

– Sim – respondeu Osíris sem coragem para encará-la nos olhos.

– Não, não está tudo bem – retrucou Capitã Cássia erguendo a voz. -Cuidado com essa lerdeza com as peças que passam por você, não sei se o seu raciocínio é mais lento ou por que você vive no mundo da lua, não importa, mas trate de ser mais rápido, entendeu? Se você não for um bom coletor, não poderá ser mais nada nessa vida. Você entendeu?

– Sim.

– Volte para sua bancada.

Osíris pensou naquela conversa, mas não conseguiu imaginar o que poderia melhorar, aquele ambiente era mais insuportável do que tudo o que já havia imaginado de terrível. Mal sabia ele ainda que as coisas ainda iriam piorar um pouco mais.

Tales era um dos garotos mais insolentes da coleta e provavelmente de Nísis, apesar de ser apenas três anos mais velho que Osíris, tinha a insolência de um adulto, era alto, bem magricelo, tagarela e conseguia ostentar uma soberba quase cômica, chegava a falar tanto que às vezes fazia várias perguntas ao mesmo tempo sem nem esperar respostas, sua prepotência era engraçada, e o mais engraçado, é que ele sempre falava sério, embora fosse difícil não rir de seu jeito estereotipado.

Apesar de tanta insolência, Tales não passava de um coletor como os outros e, mais do que qualquer um, tinha um respeito religioso pelo clã militar e não se conformava por não ter nascido como um deles, desde muito pequeno vivia um sonho utópico de se preparar obsessivamente para um dia surpreender o exército dentro de um RD e se tornar um herói em Nísis. Essa atitude o tornou um grande suposto guerreiro, mas com certeza ele não passaria nunca de um coletor reserva, designado apenas para lutar nas linhas de frente, caso fosse necessário, as chances de ele se tornar um autêntico e respeitável militar pela simples capacidade, eram nulas já que o clã militar mantinha uma distância bem delimitada dos coletores.

No fundo Tales era consciente e frustrado com isso, e essa frustração, por algum tempo, passou a ser descontada em Osíris. Um dia, Osíris passou por um duelo de totens no qual, como sempre, Tales estava ganhando. Osíris passou e olhou com um interesse momentâneo, tentando entender porque seu pai e todo mundo gostavam tanto de um duelo de porretadas, logo ele se cansou e saiu, deu as costas sem qualquer interesse naquilo. Tales reparou o descaso e passou a implicar com Osíris diariamente depois desse dia.

– Quem você pensa que é? Você não é diferente de ninguém, por que você não luta? Por que você não conversa? Você não gosta desse lugar?

Osíris procurava falar o menos possível, apenas ouvia praticamente às mesmas coisas todos os dias.  Sempre no mesmo horário, quando Osíris já se preparava com pressa para voltar para sua casa, Tales o encontrava junto com sua trupe.

– Ei estranho! – Chamava Tales com sua insolência normal, ele sempre o chamava assim – Você pensa que vai embora agora? Você não vai embora, eu não vou deixar você ir embora.

Osíris sabia que ficaria ali mais uma hora ouvindo aquele sujeito falar um monte de baboseiras sem parar.

– Por que você não consegue nem assistir a um jogo de totem? Eu sou o melhor lutador desse lugar e você passa dando as costas assim, nem um militar daria as costas para Tales Baruk se o visse jogando Você não gosta de totens? Quem não gosta de totens não gosta de mais nada. Você precisa se preparar para a linha de frente do exército, ser como eu, seguir meu exemplo.  Se um dia precisarem de você para defender a colônia, será um desastre, você não vai ajudar em nada. Olhe para mim quando eu falo! Preste a atenção, pare de ficar olhando para o chão, não tem nada no chão, você tem que olhar para cima, os inimigos sempre vem de cima.

– É isso aí, mostra para esse fraco! – diziam os garotos que estavam com Tales. Implicar com Osíris acabou virando uma ótima distração.

– Os militares protegem você – continuava Tales – eu protejo você, eu também sou um guerreiro, eu não tenho sangue militar, mas tenho alma militar. Sua obrigação aqui é saber lutar e se preparar para frente de defesa, você não quer crescer? Você não quer ver essa colônia crescendo? Nós podemos ser uma Cidade Torre um dia

Tales parecia louco para lhe dar uns safanões, mas a falta de reação de Osíris não permitia isso.

Após algumas semanas, a vida de Osíris já estava um inferno completo, pior do que quando apenas enfrentava a curiosidade dos coletores ao redor de sua bancada. Durante o dia, ele precisava aguentar a marcação desagradável dos coletores ao seu lado, cuidado de cada movimento que fazia para que não atrasasse a coleta. Na hora de voltar para casa, quase sempre, Tales aparecia querendo provocar algum conflito que Osíris procurava absorver quieto para que acabasse logo. Também não dava para pedir ajuda a Ângelo, ninguém pedia nenhum tipo de proteção a quem quer que fosse, era preciso enfrentar aquilo sozinho.

–      Como estão as coisas na coleta? – Perguntava Ângelo, sempre muito interessado e preocupado.

–      Bem – respondia Osíris, mais econômico que de costume.

–      Está tudo bem mesmo?

–      Sim – respondia Osíris, independente do grau de estresse que havia passado.

–      Ângelo tentava participar da vida de Osíris fora de casa, mas isso era difícil, Osíris, mais do que nunca, precisava enfrentar o mundo sozinho, e qualquer interferência poderia piorar ainda mais as coisas.

Apesar de todo o transtorno, algo muito legal aconteceu nesta época: O jeito esquisito de Osíris acabou chamando a atenção de ninguém menos do que Ester Martins, a filha do General Martins – chefe maior de Nísis. Ester era uma menina animada e curiosa com tudo, embora todos a respeitassem, só os mais sérios e amargurados não gostavam de sua inquietude. Apesar de ser parte da família mais respeitada e reverenciada da colônia, sua postura era o contrário disso, Ester raramente lembrava-se de sua posição superior. A arrogância que seu pai e todo o seu clã ostentavam, inclusive, lhe irritavam. O lugar, portanto, onde ela mais gostava de ficar, era na área de coleta, andando no meio dos coletores. Alguns militares auxiliavam Capitã Cassia, os mais novos aprendiam enquanto os mais velhos supervisionavam nas áreas mais distantes de seus olhos, eram muitos coletores trabalhando ao mesmo tempo, Capitã Cássia nomeou Ester Martins como sua aprendiz direta, acreditando que um dia, a menina poderia até substituí-la antes de assumir alguma posição maior na colônia. Ester, no entanto, parecia mais curiosa com o cotidiano dos coletores e seu cansativo trabalho. Não demorou muito para ela começar a reparar Osíris e seu hábito incomum de mexer com a sucata que passava por suas mãos, Ester era dois anos mais velha do que ele.

Certa vez, ele reconheceu algumas peças e começou a separá-las em sua bancada. Após algumas horas, uma esperada peça passou pela sua mão e ele a colocou diante de seus olhos pegando as demais peças separadas sem nem precisar olhar para elas enquanto as encaixava umas nas outras, ao encaixar tudo, Osíris conseguiu em poucos segundos montar um dispositivo irreconhecível, mas que flutuava sob uma luz azul, o estranho objeto ficou flutuando diante de seus olhos com a pouca energia que restava em uma bateria pendurada nele.

Capitã Cássia viu de longe e logo se irritou com a distração do coletor,

– Pare com isso! – reprimiu agarrando o dispositivo ainda no ar – Eu já falei pra você não dispersar de seu trabalho, você é um coletor e não um transformador!

Osíris apenas abaixou a cabeça e esperou acabar.

Ester viu de longe e ficou curiosa, Osíris já era bem conhecido de todos que mais falavam dele do que com ele realmente.

Assim que a peça foi jogada ali por perto, Ester a pegou e devolveu a ele.

– Pode pegar – disse escondido.

Osíris, sem jeito, pegou sem entender por que ela estava fazendo aquilo.

– Você é o menino que gosta de mexer com a sucata? – Perguntou Ester.

– Sim – respondeu Osíris surpreso com a aproximação da filha do General.

– Eu sou Ester Martins.

– Eu sei.

– Você gosta de inventar coisas?

– Eu…

– Eu fiquei sabendo que você gosta de ficar mexendo nas peças que passam por aqui.

– Não, eu… – Osíris estava preocupado com aquela repercussão.

– Relaxe – Tranquilizou Ester – Eu também sou curiosa com coisas assim.

A espontaneidade daquela menina deixava Osíris sem jeito já que nem deveria estar falando com ele.

– Eu estou estudando um paralisante muscular – Disse Ester – acho que você poderia me ajudar

– Posso mas… por quê? – estranhou Osíris.

– Isso me veio à cabeça esses dias enquanto eu aplicava minhas injeções de glicose, você pode me ajudar?

– Acho que sim.

Ester passou a rodear Osíris durante a coleta lhe fazendo várias perguntas, ela gostava de observar o jeito com que Osíris lidava com aquela sucata, Ester também gostava de fazer alguns estudos, ultimamente estava com aquela estranha ideia na cabeça sobre o tal paralisante muscular. Osíris sempre lhe dava algumas dicas sobre magnetismo e comportamento molecular. Capitã Cássia não gostava muito de ver a filha do General tão próxima de coletores, ainda mais de Osíris que, segundo a opinião da maioria, não parecia muito normal. Para Osíris, no entanto, foi muito bom contar com aquela menina importante por perto, os coletores pararam um pouco de importuná-lo.

Tales ainda permanecia com a mesma implicância e no mesmo horário, apesar de trabalhar em outra área de coleta junto com garotos mais velhos, ele não perdia a chance de ir até Osíris para implicar com ele exaustivamente.

– Ei, seu estranho! – Chamou uma vez, conseguindo pegar Osíris enquanto tentava voltar rápido para casa – por que você foge? Está errado, tudo errado, não é assim. Você tem medo do que? Você nunca enfrentou ninguém, como sabe que os outros são mais fortes que você se você nunca os enfrentou?

Tales se aproximou e prosseguiu com a sua implicância dando com o dedo indicador em seu peito:

– Preste bem a atenção, não há espaço para ninguém inútil nessa colônia, quando você ignora uma partida de totens é uma ofensa aos guerreiros da colônia, ouviu bem? Você está me ouvido? Levante esse rosto, seu infeliz.

Os outros garotos se divertiam.

– Você precisa acordar pra vida – continuou Tales – ser igual a nós.

O sermão de Tales era praticamente o mesmo todos os dias, e Osíris já parecia bem habituado a ficar ouvindo aquela ladainha até que ele se cansasse, mas neste Osíris reagiu de forma tão impulsiva que simplesmente não conseguiu nem entender por que fez aquilo.

– Eu não me importo – Disse em seu tom natural.

– Como é que é? – Perguntou Tales incrédulo com a afirmativa – O que você disse? Você disse mesmo isso que eu acabei de ouvir?

Antes que Tales continuasse com sua intimada, uma voz feminina interferiu.

– Ei, pare de implicar com o menino – disse Ester se aproximando, Tales levou um susto seguido de uma tremedeira que nem ele entendeu de onde saiu.

– É a filha do General – comentaram os amigos de Tales.

A célebre filha do General Martins nunca havia lhe dirigido à palavra, nem estado tão perto também, ele sempre a via tão longe e alheia a sua vida e, de repente, ela estava ali, lhe chamando a atenção por culpa daquele garotinho idiota.

Tales sentiu um inesperado frio na barriga, apesar de estar lhe reprimindo, os olhos daquela menina bagunçava seus sentidos. Ele odiava sentir aquilo, tinha absoluta certeza que sempre estava no controle, mas de repente, estava tão sem jeito que não sabia nem onde colocar os próprios braços.

– Tudo bem – concordou Tales intimidado, seguido de um olhar ameaçador para Osíris – se você acha melhor, tudo bem. Eu parei, não vou encostar nele, ele é um idiota, mas tudo bem.

– É normal você falar assim, sem parar? – Perguntou Ester.

– Eu tento ser claro, resolver as coisas de uma vez, eu sou uma pessoa astuta, inteligente e…

– Tudo bem, tudo bem – interrompeu Ester – Você está implicando com esse menino por que ele não é igual a você?

– Ele precisa estar pronto para proteger Nísis, é para isso que existimos além de ser coletores – disse Tales, quase em posição de sentido e olhando para frente, tentando argumentar – um dia, o exército pode precisar dele, todos nós aqui estamos prontos para ajudar o exército, isso é o certo. É inaceitável um coletor tão despreparado, fraco, molenga e…

– Não precisa ficar nessa posição de reverência para falar comigo – interrompeu Ester outra vez – e essa ideia de preparação é balela, vocês são treinados apenas para ser bucha de canhão.

– Mas é nossa obrigação prezar pela integridade da colônia – disse Tales – Tudo mundo faz isso, é normal, é padrão, é…

– É balela – disse Ester – certo é ele que não está nem aí para esta palhaçada.

Tales engoliu suas palavras assustado com uma afirmação tão séria vinda da filha do General.

– Nós apenas apoiamos o General Martins – disse Tales.

– Ah é? Eu não – Disse Ester surpreendendo mais ainda quem estava ali, até mesmo Osíris.

Tales não sabia o que dizer: primeiro por que estava diante de uma autoridade que exigia total respeito, segundo por que a menina estava lhe dizendo coisas absurdas para uma militar de posição tão superior e terceiro por que além de tudo, aquela menina estava bagunçando seus sentidos além do normal.

Osíris sabia que aquilo poderia lhe causar sérios problemas nos próximos dias.

No dia seguinte, alguma coisa já havia se espalhado entre os coletores e Osíris recebeu uma carga bem maior de olhares incômodos enquanto estava em sua bancada, aquilo estava ficando insuportável. Para ajudar, a filha do General não se aproximou neste dia, apenas ficava lá longe, ao lado de capitã Cássia que, pelo jeito, não estava a deixando circular entre os coletores.

Uns dois dias depois, exatamente no horário de sempre, Tales apareceu para acertar algumas contas já esperadas.

– Parado aí, seu estúpido! Não é assim, nós precisamos acertar algumas coisas. Por culpa sua eu acabei me indispondo com um militar e pior, foi à filha do General Martins.

Osíris o encarou, franzindo discretamente sua testa, aquilo não fazia sentido e sua paciência ainda estava no mesmo estado que da última vez: no limite.

– E outra coisa – continuou Tales – que negócio é aquele de você não se importar? Como assim você não se importa? Quem você pensa que é para estar nesta colônia e não se importar com as coisas que os outros se importam?

Tales parecia querer algum tipo de reação. A impressão é que aquela passividade lhe incomodava mais do que alguma eventual resposta.

– Fale comigo! Fale comigo – Disse Tales com o rosto bem próximo de Osíris, tentando intimidá-lo

– Falar o que? – perguntou Osíris com os olhos semicerrados. Os outros garotos ovacionaram a reação tentando provocar Tales.

– Você não está prestando a atenção? – continuou Tales, em que mundo você está agora? Eu estou falando da vergonha que você me fez passar diante da filha do General, é disso que eu estou falando, você percebeu o que fez?

– Eu não fiz nada – retrucou Osíris.

– Como é que é?

– Foi você que… fez – respondeu Osíris.

Tales riu com um rosto desfigurado.

– Você está me dizendo que não fez NADA?

Osíris estava reagindo novamente sem entender o que o levava a fazer aquilo.

– Você estava… implicando comigo e… ela se enfezou.

– Pera aí, você esta me dizendo que a culpa foi minha?

– Sim – respondeu Osíris olhando fundo nos olhos de Tales – apenas sua.

Osíris foi tão impulsivo na resposta que novamente nem ele entendeu como respondeu aquilo. Tales, ainda mais impulsivo, o empurrou no chão com violência querendo começar uma briga.

– Você é louco? – Perguntou achando inaceitável aquela insolência de Osíris.

Osíris se espatifou levantando até poeira e, permaneceu imóvel pensando na agressão estúpida que havia sofrido.

Tales sentiu algo diferente quando viu aquele menino jogado no chão, era como se sua ânsia por alguma reação tivesse sido finalmente suprida, sobrando agora apenas uma sensação de constrangimento. De repente, havia tantas coisas melhores pra fazer do que ficar tentando puxar briga com aquele garoto, que ele se sentiu mal. Não esperava sentir algo assim, mas se sentiu um idiota. Os outros garotos adoraram a cena, pareciam ter esperado ansiosos por aquilo e até quiseram se empolgar tentando continuar agredindo Osíris. Tales não deixou.

– Fiquem aí – disse agarrando um dos garotos e o jogando longe também – não façam nada, não mexam com ele.

– Deixe agente se divertir também – Protestaram.

– Calem a boca que EU mando em vocês.

Tales tentou disfarçar o arrependimento.

Osíris se levantou, bateu um pouco a poeira e foi embora, Tales olhava para qualquer coisa, menos para seu rosto, provavelmente estava com um vergonha que até Osíris estranhou.

 

As coisas começaram a mudar depois desse dia, Tales reduziu drasticamente sua implicância e fez também diminuir a implicância dos outros. Pouco tempo depois, a ironia do destino pairou por ali.

Não era segredo para ninguém que Osíris gostava de manusear sucata, ninguém o respeitava por isso já que ele atrapalhava o trabalho dos outros coletores. Tales, no entanto precisou desse conhecimento para resolver um problema muito importante.

As vésperas de um torneio de totens, seu bastão magnético começou a falhar e a única chance de fazer alguma coisa a tempo era procurar Osíris, Tales sabia que ele gostava de ficar mexendo em equipamentos velhos e precisava muito resolver seu problema.

Ele abordou Osíris no mesmo lugar onde o abordava para implicar.

– Oi, Osíris – Cumprimentou ele um pouco acanhado – esse é o seu nome, não é?

– Sim – respondeu Osíris estranhando por ter sido chamado pelo nome, já fazia semanas que aquele sujeito não lhe importunava.

– Eu preciso de uma ajuda? – Disse Tales evitando olhá-lo nos olhos – Eu estou precisando de uma força. Precisando muito mesmo. Sei que agente não se dá muito bem, mas não tenho outra opção, aqueles idiotas da classe transformadora não costumam nem me dirigir à palavra.

– O que… você precisa? – perguntou Osíris, discretamente interessado no que o sujeito poderia querer dele.

– Dizem por aí que você conserta coisas, que mexe com lixo e inventa uns negócios, não sei, mas é o que dizem. É isso mesmo, não é?

– O que você quer? – Perguntou Osíris curioso.

– Eu preciso arrumar meu clavac e acho que você pode fazer isso, ele está quebrado, não funciona direito, a radiação está fraca, o porrete parece tão forte quanto um pedaço de pau. Amanhã vai ter um torneio de totens e eu já tenho idade para participar, eu não posso perder isso, são as eliminatórias para o grande torneio no final do ano e o General vai estar lá.

Osíris não hesitou em ajudá-lo apesar do histórico nada propício entre ambos. O negócio é que ele conhecia a tal ferramenta e, mesmo que não quisesse, seu interesse era mesmo concertar. O clavac de Tales era uma ferramenta igual ao clavac de Ângelo e também aos inúmeros clavacs usados pelos coletores na colônia, uma ferramenta comum para lidar com ferragens pesadas. Existiam clavacs militares, muito mais poderosos e finos, mas esses, apenas os militares tinham acesso. Osíris, graças aos estudos que fizera naquele pedaço de clavac que havia encontrado, não só arrumou à ferramenta de Tales como também conseguiu amplificar sua radiação, tornando-a mais forte.

Tales nem soube como agradecer e fez questão que ele assistisse sua luta. Osíris aceitou o convite tentando atender o velho desejo de Ângelo para que se enturmasse.

Ângelo ficou muito feliz e foi com Osíris assistir a luta.

 

O esquema era o mesmo: dois oponentes e três totens de barro atrás de cada um, os totens podiam chegar a aproximadamente um metro e pouco de comprimento e a missão de cada oponente era protegê-los.

Uma luta começou.

Dois clavacs se chocavam no ar gerando uma explosão magnética espetacular diante dos olhos da plateia alvoroçada. A plateia delirava a cada pancada, Osíris se assustava com aquelas explosões de luz.

O oponente do time ou clã Alfa como gostava de ser chamado, estava com a vantagem, seus totens de barro em sua retaguarda ainda estavam intactos, enquanto um dos totens do oponente do clã Unix, acabava de ser esfacelado no chão. Não querendo perder tempo, o oponente Alfa foi desferindo uma sequência de golpes rápidos no oponente Unix que acabou permitindo seu avanço na linha até se aproximar de seus totens mais uma vez, isso provocou a derrubada de mais um totem.

– Olha só a voracidade com que eles tentam se aproximar dos totens – Comentava Ângelo, é essa voracidade que você precisa descobrir aí dentro.

Na plateia, a maioria dos jovens dividia sua atenção entre ver a luta e comparar as cores mutáveis de suas mantas, Ester Martins também estava ali e observava tudo com certo desinteresse, parecia tão distante daquele clima quanto Osíris. Os lutadores de totens sempre procuravam impressionar as meninas da classe militar e Ester, apesar de parecer o foco principal, não estava nem aí.

Quando a luta recomeçou, o oponente Unix quase conseguiu derrubar um dos totens do seu adversário, mas isso apenas agitou mais as coisas e, no final, todos os seus totens já estavam destruídos no chão, com eles, a última esperança do clã Unix em ganhar alguma coisa.

Tales chegou com panca de guerreiro solitário vestido com um sobretudo configurado na cor vermelha e maior que o habitual, queria passar a imagem de um guerreiro solitário e implacável mas isso garantiu apenas mais algumas risadas para o público. Ele teve a audácia de se inscrever sozinho no torneio e estava disposto a lutar sozinho com os oponentes do clã Alfa, um de cada vez. Seu egocentrismo era famoso, mas era muita megalomania querer lutar sem time como se não fosse cansar.

Até mesmo Ester vendo aquele sujeito cômico, se interessou mais pela luta, logo se lembrou de que já tinha falado com ele.

Tales, apesar da panca, não estava brincando, nunca costumava brincar, mas era tão estereotipado em seus atos que acabava se passando por palhaço.

O juiz posicionou o oponente alfa e Tales, um de frente para o outro.

– Aquele é seu amigo? – Perguntou Ângelo para Osíris.

– Não sei ainda – respondeu Osíris.

 

– Vocês conhecem as regras – disse o Juiz para os oponentes – um totem derrubado, a luta recomeça, três totens derrubados o oponente ganha. Golpes na cabeça ou pescoço resultam em expulsão e punição. Quem não seguir as regras perde antes do que imaginar.

– Você entendeu? Coletor… – ironizou o oponente alfa.

– Vem! – Disse Tales – vem que hoje eu estou pilhadaço.

Tales estalou o pescoço e se posicionou, o oponente alfa avançou, assim como ele fez antes com o oponente Unix, Tales defendeu virtuosamente todos os golpes rápidos e violentos, mas um de seus totens quase foi derrubado por pouco, no último instante, ele empurrou então o oponente com o pé, fazendo com que se esborrachasse para traz. Tales girou seu clavac, se aproximou um pouco mais e o estendeu de modo que ficou quase duas vezes maior, acertando um dos totens que foi destruído.

– O garoto é bom, eim Osíris! – Disse Ângelo surpreso.

Alguns aplaudiram, mas a maioria vaiou. Tales não era o preferido da plateia.

O militar estava inconformado no chão, olhava Tales com ira no olhar.

–      Você se acha tão bom, não é, coletor – disse com desprezo para Tales.

–      E eu não sou melhor? – retrucou Tales com olhar sarcástico, enquanto começava a ouvir algumas vaias.

Ester estava alheia a preferências, mas olhava curiosa para o exótico sujeito que estava conseguindo derrubar um bem treinado e carismático militar, logo ela se lembrou de que já havia cruzado com ele uma vez.

A luta recomeçou e o oponente alfa avançou tentando derrubar Tales a qualquer custo.

– Não seja estúpido, soldado – Sorriu Tales seguro – Você está lutando com o melhor, lutar com alguém preparado como eu é um aprendizado. Mesmo que você apanhe como um prego.

Às vezes era pouco considerar Tales um inquieto, seu estado natural era sempre muito agitado e em dias de torneio, sua energia triplicava.

Ele foi se esquivando até acionar novamente a extensão de seu bastão que o tornava uma vareta. Antes que o oponente fizesse o mesmo, Tales conseguiu fazê-lo recuar. Por um pequeno descuido, o oponente conseguiu derrubá-lo com um pontapé assim como ele fez instantes antes. Quando o militar tentou correr, Tales ainda no chão conseguiu derrubá-lo erguendo o bastão entre suas pernas. O soldado caiu sobre outro totem. Sem tirar os olhos do oponente, Tales derrubou seu último totem de longe e a plateia agitou-se misturando ovação com vaias.

Tales ganhou a luta.

Logo as vaias ficaram mais fortes.

– Você sempre será um coletor infeliz, seu miserável – disse o soldado, inconformado com a vitória de um coletor.

– Eu poderia ser útil ao exército – disse Tales tentando amenizar as coisas.

– Você poderia ser útil morto – disse o soldado incontrolável, avançando em Tales. Tales o agarrou sem muitas dificuldades e o rodopiou, mobilizando-o no chão.

– Você não precisa me odiar – disse olhando fundo para o soldado.

– Você não é digno de ódio – disse o soldado, ironicamente raivoso – você é apenas um coletor.

O soldado estava irado com a incapacidade de derrotar Tales.

Tales saiu batendo palmas para si mesmo, imponente e orgulhoso com seu êxito, tentava esconder também a frustração em não conseguir se aproximar dos militares de forma alguma. Quase ninguém gostou da vitória além dele. Ângelo e Osíris ficaram admirados, ele era bom mesmo. Ester Martins o observava com certa curiosidade.

Após este dia, Tales foi mudando com Osíris, aquele incômodo que a estranheza do menino lhe causava, deu lugar a uma discreta curiosidade. Osíris permaneceu na mesma rotina de sempre, esperando apenas chegar ao final do dia para retornar ao seu mundo, mas Tales sempre tentava puxar alguma conversa quando o encontrava, algumas vezes até o protegia ameaçando violentamente outros garotos que tentavam incomodá-lo. Ele e Osíris acabaram se dando muito bem, ambos eram a expressão máxima do antagonismo, mas suas personalidades encontraram um meio interessante de conviver. O jeito agitado e ansioso de Tales era divertido para Osíris enquanto a passividade de Osíris dava todo o espaço que Tales precisava para falar, falar e falar.

O que ninguém esperava realmente é que circunstâncias terríveis ainda reforçariam muito aquela amizade iniciante.