Além dos portões

por Daniel Amélio dos santos

– Não acredito! – Disse Ester – uma invasão? Hoje?
– E os guardiões vão com tudo! – Completou Tales ligando a projeção.
Osíris ficou confuso por um instante, não poderia ir embora assim.
Pela imagem projetada na parede era possível ver a rua e os guardiões já se posicionando suspensos a alguns mentos acima do chão para observar o lugar de onde os invasores viriam. Lá na frente um grande cargueiro terrestre se aproximava, ninguém nunca tinha visto um daqueles, seu tamanho era assustador.
Com dois RDs guardiões, sendo que um deles ainda não estava completamente pronto para lutas pesadas, o General Martins decidiu enfrentar os invasores e qualquer um sabia que Nísis não estava preparada para isso.
– Acho que eles são mesmo de Muur. – Disse Tales.
– Eu estou com medo – disse Ester – Nós não estamos preparados, o mais sensato agora era não enfrentar como já estamos fazendo.
– Tales olhou preocupado para Ester, ele sabia que a situação da defesa de Nísis, estava precária para uma situação como aquela.
– Olhe para aqueles invasores disse Ester – Os nossos são um monte de sucata perto deles.
Os RDs invasores foram surgindo de atrás do cargueiro, eram claramente superiores aos guardiões de Nísis, pareciam mais armados, preparados e resistentes.
O RD beta chegou atacando e a luta começou. a terra balançava, Osíris, Tales e Ester caíram sentados diante da projeção e assim ficaram.
O RD Gama conseguiu esquivar-se do primeiro golpe. Outro invasor que estava flutuando alguns metros acima também pousou e foi surpreendido pelo RD Beta que surgiu de repente, e pulou sobre ele socando sua armadura com os dois punhos simultaneamente.
– Começamos bem! Vamos detonar esses infelizes – Disse Tales empolgado.
Um dos invasores iniciou um ataque massivo de tiros de impacto.
O RD Gama foi derrubado logo no começo com a força dos tiros e quando tentou contra-atacar, o outro invasor saltou sobre ele e estraçalhou suas pernas e braços violentamente com um clavac próprio para RDs, eliminando qualquer possibilidade de contra-ataque.
– Vai ser um desastre – Disse Ester.
Tales nem respondeu, já estava com o suor brotando em seu rosto.
Enquanto isso, o RD Beta tentava se esquivar sem sucesso dos tiros do outro invasor.
Osíris parecia uma estátua olhando aquela projeção, era uma cena que lhe trazia o passado a todo instante berrando em seu ouvido.
As previsões daquele combate agora não eram nada boas.
Osíris se levantou sem tirar os olhos da projeção e foi se afastando, pensando profundamente no que fazer, Ester e Tales nem repararam. Por impulso ele pegou sua mochila e saiu correndo para fora de casa rumo ao local do combate.
O outro invasor já havia parado de atirar e agora estava apenas se divertindo com o RD Beta no chão enquanto lhe deferia socos com os dois punhos juntos.
Osíris já estava lá fora vendo a luta a uns trinta metros. Tirou o joypad da mochila enquanto se aproximava, caminhando cautelosamente.
Tales não entendeu nada quando o viu pela projeção.
– Espera aí, Como assim? Aquele é o Osíris! O que ele foi fazer lá? O que ele pensa que vai fazer no meio daquela luta?
Ester logo se lembrou do joypad.
– Acho que já sei – Disse com um sorriso assustado.
– Sabe o que? – Perguntou Tales ainda mais confuso – sabe o que ele foi fazer lá? O que você sabe que eu não sei?
– O Osíris tem um parafuso solto, isso sim – respondeu Ester.
Osíris estava tremendo, sua adrenalina fervilhava, quase lhe tirando o ar, mesmo assim, não parava de caminhar em direção a luta. Ele impôs o joypad contra o invasor e esperou o instante certo, era difícil até se manter em pé sobre terra tremendo com passos daqueles monstros, mas o pequeno tamanho de Osíris lhe permitiu se passar quase despercebido no meio daquela luta, um único movimento daqueles robôs pesados para cima dele seria fatal.
Era impossível desistir agora. No pulse, quatro RDs foram identificados e sincronizados.
Após alguns segundos a sincronia estava completa.
Osíris iniciou o comando.
No pulse, eram apontados quatro RDs no controle, mas três ainda oscilavam. Todos os RDs travaram em seguida, Osíris não entendeu por que todos os RDs sofreram a interferência, logo acionou seu sub e voou ao redor tentando movimentar o controle, posicionando seu braço o mais alto que pode. Com isso, o equilíbrio dos robôs ficou comprometido e eles se espatifaram no chão ao lado dos guardiões que já pareciam praticamente derrotados, Osíris tirou o dedo do botão direcional cautelosamente.
Os três RDs saltaram imediatamente recuperando seu controle, os invasores vieram em sua direção para pegá-lo, Osíris se assustou, mas se posicionou dando as costas para guardião beta e acionou a tempo o botão direcional novamente travando os RDs invasores que caíram estáticos para frente, com aquele peso todo chocando com o chão, vários estilhaços voaram para todos os lados, Osíris acabou se desequilibrando e caindo com alguns pequenos estilhaços voando em sua direção.
Aproveitando o instante, o RD Beta que estava um pouco longe da sincronia com o joypad, pulou sobre um invasor e começou a socar suas costas com certa dificuldade devido a um de seus braços já estar danificado. Em seguida, ele ergueu o invasor. Pele visto, a interferência influenciava conforme a aproximação.
Osíris, tremendo, tirou o dedo do joypad e o outro invasor que estava no chão levantou-se. No mesmo instante, o RD Beta jogou seu invasor sobre ele fazendo os dois invasores voarem longe. Antes que o RD Gama tentasse ajudar, os invasores se levantaram e começaram a atirar, quando conseguiram se aproximar do RD Gama, Osíris viu que mais um único golpe poderia ser fatal e acionou o joypad novamente. Ambos travaram e o Invasor caiu para frente, Osíris se aproximou com o coração na garganta e preparou-se para dar o comando de destrave.
– O que ele está fazendo? – Perguntava Tales de boca aberta assistindo tudo – Como ele faz aquilo? O que é aquele controle na mão dele? Não é o nosso videogame?
Ester sorriu.
– Eu só sei de uma coisa – Disse com os olhos fixos na luta – Ele está conseguindo salvar a colônia.
Assim que Osíris tirou o dedo do controle, o RD Gama atirou-se com um único braço em bom estado sobre um dos oponentes com uma chuva de tiros e golpes, o guardião alternava destruindo aos poucos o invasor mobilizado que em alguns minutos começou a entrar em pane com tantas pancadas.
Osíris se voltou ao RD Beta e ambos acabaram se entendendo muito bem também entre os momentos de interferência ativada e desativada, Ele acionava o joypad, o apontando para o invasor, com isso o Beta aproveitava para pular sobre ele com uma enxurrada de golpes, quando a sincronia o detectava Osíris desativava o controle.
Unidos assim, Osíris e os guardiões conseguiram virar o jogo sendo implacáveis com a invasão.
Soldados começaram a sair das naves terrestres na tentativa de atacarem sem os robôs, mas eles se depararam com as tropas de Nísis que estavam em número muito maior. Soldados geralmente eram um reforço reserva e pós-ataque, raramente tentavam atacar RDs e entravam na batalha apenas quando as máquinas não davam conta.
Logo os invasores recuaram com os tiros avassaladores do RD Gama que, mesmo seriamente danificado, desferiu a pancada final no último invasor.
O que sobrou dos RDs invasores, o grande cargueiro e os equipamentos agora pertenciam a Nísis, os soldados foram feitos prisioneiros e o orgulho da colônia estava garantido.
Osíris ainda tremia dos pés à cabeça olhando para seu joypad enquanto tentava assimilar o que acabara de fazer, Não conseguia imaginar de onde veio tanta coragem para ficar tão perto de um confronto real de RDs.
As pessoas começaram a sair de suas casas com seus rostos perplexos. Todos viram Osíris diante da surpreendente vitória dos guardiões e começaram a ovacioná-lo em delírio.
Ele ajudou os guardiões! Ele ajudou a salvar a colônia! Como ele fez isso? Diziam.
Muito tenso ainda, Osíris não entendeu direito o que estava acontecendo, as reações daquelas pessoas ainda poderiam ser diversas. Não dava pra saber o que os militares realmente pensariam daquilo.
Independente de qualquer coisa era hora de sair, sumir daquele lugar. Osíris pegou seu sub, voou para longe e iniciou sua jornada.
Tales ainda estava no mesmo lugar, pasmado com o que acabara de ver.
– Ele conseguiu mobilizar os invasores – murmurou meio aéreo – s-sozinho.
– E eu acho que ele partiu sem agente – comentou Ester ainda abobada também.
Tales acordou.
– Vamos atrás dele! – Exclamou Tales percebendo.
– Vamos!
Tales e Ester passaram voando sobre as cabeças da multidão e foram atrás Osíris assustados como se não o reconhecessem mais.

Chegaram ao seu lado o encarando ainda pasmos.
– O que você fez? – Perguntou Tales.
Osíris ainda estava aéreo também.
– Eu… não sei.
– E-eu não sabia que você era capaz de fazer aquilo.
– Nem eu.
Ester olhava tão embasbacada quanto eles.
– Você não tinha medo de RDs? – perguntou.
– Eu tenho – Respondeu Osíris.
Ester colocou a mão no próprio queixo lhe apontando que estava machucado.
– Estilhaços. – Disse Osíris – vai passar.
O perímetro habitado de Nísis estava ficando para traz.
Osíris, Tales e Ester atravessaram o primeiro portal e iniciaram a viagem atravessando o já conhecido perímetro inabitado.
Osíris ligou uma música alta em seu fone e seguiu em alta velocidade, pensando no que viria pela frente. Tales estava deixando a perplexidade e ficando eufórico. Ester estava empolgada com tudo o que estava acontecendo, mas estava um pouco tensa e melancólica também por estar pela primeira vez rumo a um lugar tão longe de casa, não conseguia imaginar a reação de seu pai ao saber que estava fora de Nísis agora, se ele se importasse seria preocupante, mas saber que ele poderia não dar a mínima também a deixava mal.
O perímetro inabitado era calmo e tranquilo, raramente havia alguém por ali, nada além de algumas ruínas de alguma cidade morta esperando para ser explorada. Voar, no entanto entre as ruas quase invisíveis pela ação do tempo e prédios sem vida, sem se importar com nada, era uma sensação única.
– Por que você apontava o joypad do videogame para ele? – perguntou Tales – Aquele joypad controla outras coisas além de jogos? O que você estava fazendo?
– Foi uma… Interferência no controle. – Respondeu Osíris.
– Esse joypad faz isso?
– O Osíris adaptou o joypad – respondeu Ester – ele captou os códigos de comunicação naquele dia do treino.
– Cara, você salvou a colônia! – Gritou Tales sorrindo assustado. – Você safou aqueles soldados idiotas! Você salvou o povo! Não houve saque e a cidade ganhou mais dois RDs! Se não fosse você, os guardiões levariam um pau dos invasores e a colônia ia perder tudo.
– Que bom. – Sussurrou Osíris sem jeito.
– VOCÊ É INSANO, CARA! – Berrou Tales inconsequente. – VOCÊ É ANORMAL!
– Tales! – Chamou Ester incomodada – Se acalme, pare de falar um pouco.
– Quem mais nessa terra seria capaz de fazer aquilo! – Insistiu – Quem? Responda-me, quem mais?
Osíris ainda refletia sobre o que havia acontecido, não conseguia entender de onde veio tanta coragem para fazer o que fez.
A terra mais acidentada e cheia de morros de entulhos logo começou a surgir, ferragens de todo o tamanho, restos de construção e veículos velhos, demonstravam restos muito antigos de alguma cidade morta, restos mais antigos do que eram capazes de imaginar. As cidades mortas compunham aquela atmosfera aterradora da Terra Devastada, todas já se encontravam em estado terminal de existência, alguns prédios já não passavam de montes gigantescos de entulho anamórfico, tão grandes que às vezes era possível percorrer seu interior como se fossem cavernas.
Tales conhecia boa parte da Terra Devastada, alguns lugares lhe eram familiares, mas raramente voava por aquelas áreas mais afastadas. Osíris também conhecia um pouco aqueles lugares, mas sua identificação foi diminuindo gradativamente e logo todos começaram a perceber que nunca haviam estado tão longe. O limite final de Nísis ficava ainda a alguns dias de viagem.

– Vamos tentar andar juntos, Tales! – Reclamou Ester.
– Relaxa! – Retrucou Tales – Nós ainda estamos no perímetro da colônia, deixe eu me divertir um pouco.
– Tá, mas o monitoramento desta área é baixo, podem ter vulgos por aqui.
Tales se divertia como nunca com a liberdade que seu sub lhe proporcionava, conseguia chegar a mais de duzentos quilômetros horários e brincava desviando de tudo enquanto destruía restos de construção pelo caminho, Osíris preferia acompanhar Ester que não estava a fim de fazer tantas peripécias com seu T-flap.

– Quanto tempo ainda falta para atravessarmos a fronteira de Nísis? – Perguntou Ester.
– Acho que até manhã perto do meio dia – Respondeu Tales.
Ester observava com atenção e interesse as construções e os restos de antigos veículos espalhados na rua.
Após algumas horas começou a escurecer.
Osíris, Tales e Ester estavam voando baixo por um quarteirão onde havia alguns prédios que apesar de estarem em pé, pareciam visivelmente prestes a desmoronar, as ruas estavam praticamente escondidas sob os montes de entulhos, mais parecendo longas valas.
Tales, como sempre soberbo, acionou seu clavac e resolveu brincar um pouco derrubando o que encontrasse pela frente: postes, placas, estátuas, tudo o que fosse possível de ser destruído virava seu alvo.
– Cara, é muito legal fazer isso! – Gritava empolgado com a eficácia do clavac.
A força de impacto do clavac, permitia que um graveto ou uma viga de concreto, fossem destruídos com o mesmo golpe. Logo Tales acabou entrando em um dos prédios que estavam no caminho e continuou destruindo o que encontrasse dentro deles.
– Por que será que eu estou preocupada com isso? – Ester pensou alto.
– Eu sei me virar – Retrucou Tales arrogante – Fique tranquila.
Tales queria apenas agitar um pouco as coisas e começou a derrubar as colunas de sustentação por onde passava, lá de fora a alguns metros, Ester e Osíris observavam a estrutura ruir cada vez mais à medida que uma coluna era derrubada.
As pequenas pedras no chão começaram a se agitar
– Tales! Tá ficando perigoso! – Gritou Ester.
Osíris olhou para cima e viu a estrutura começar a desmoronar um pouco à frente de onde estavam. Tales ficou sem reação. Tinha absoluta certeza que se a estrutura começasse a cair, seria na sua retaguarda e não lá na frente. Osíris apareceu de repente, e tentou o puxar para fora voando, quando estavam prestes a sair de baixo do prédio, toneladas de escombros vieram a baixo de uma vez sobre eles, Osíris, por impulso, olhou para cima e viu uma luz que perecia ser um pequeno vão entre os pedaços de concreto vindo abaixo, ele subiu então rapidamente puxando Tales.
O prédio reduziu-se a uma pilha de escombros sob uma nuvem gigante de poeira, Tales e Osíris desceram diante de Ester cobertos de poeira. Ester estava paralisada de susto.
– Não aconteceu o que você esperava, não é? – Disse.
– Claro que sim, eu só queria Testar o Osíris, ver se ele está atento.
Tales quis ficar sério, mas acabou caindo na gargalhada, Osíris olhou para Ester não achando muita graça do resultado. Ester tentou ficar séria, mas acabou caindo na risada também e se divertindo com a situação.
Osíris revirou os olhos enquanto procurava se livrar de tanto pó.
– Imagine só, o guerreiro invencível morrer assim, quase no portão de casa ainda…
Tales ficou sério.
– Eu sabia o que estava fazendo – Defendeu-se tentando limpar a poeira – Você acha que eu iria fazer alguma coisa antes de calcular minuciosamente, olhe bem nos meus olhos.
– Acho que não – Disse Osíris tossindo. Ester deu risada.
– Eu sou o líder desse grupo – Intitulou-se Tales – eu sempre sei o que eu faço e sei também que devemos fazer, eu sei, podem confiar.

– Fique quieto, Tales – Disse Ester debochando – você não sabe nem para que lado fica a torre central.

Algumas horas depois, o céu começou a se fechar, logo iria chover e era importante se proteger da chuva ácida. A água que caia do céu, se tornara altamente tóxica há séculos, portanto, qualquer contato com a chuva era risco de vida. Chovia periodicamente por longas horas e isso, com certeza atrasaria também a viagem em alguns dias.
– Precisamos parar para nos proteger – Alertou Ester – Logo vai começar a cair àquela água escura.
Lá na frente, avistaram uma pessoa caída atrás de uma coluna em um dos inúmeros prédios abandonados.