A VIDA EM COLÔNIAS

por Daniel Amélio dos santos

Nísis era uma colônia baixa, localizada ao sul da península nordeste, apesar de sua famosa insolência, seu porte era bem pouco menor do que as colônias de sua categoria. Seus militares eram arrogantes e orgulhosos, acreditavam inclusive que eram muito mais poderosos do que sempre foram realmente. Essa visão quase custou sua existência algumas vezes.

 O termo “colônia baixa”, era devido à disposição horizontal de colônias desse tipo – Povoados planos que abrigavam poucos milhares de habitantes, governados por um General vitalício e designado por linhagem. As primeiras colônias baixas e também mais preparadas, conseguiram em pouco mais de um século evoluir de pequenos povoados para pujantes cidades torre – Colônias verticais gigantescas e fechadas, verdadeiras fortalezas que chegavam a mais de cinco mil metros de altura.

Comparados aos números de habitantes da terra no Mundo Antigo, a população de qualquer colônia era algo ínfimo. Apesar do tamanho colossal, as cidades torre abrigavam cerca de oitenta mil habitantes, as maiores como a Torre Central ou Sentrum, como era conhecida, não passavam de cem mil habitantes, nada comparado aos velhos países do passado, que sempre comportavam no mínimo algo na casa dos milhões de pessoas. As colônias baixas, eram ainda drasticamente menores do que isso, Muur, que era conhecida como uma das maiores colônias baixas da parte sul do continente, segundo alguns relatos, chegou a ter sete mil habitantes, Nísis, nunca passou de quatro mil. Estima-se que, somando todas as colônias juntas, o número de habitantes no baixo continente, nunca chegou a oitocentos mil. Contando as criaturas desgarradas da Terra Devastada é até possível aumentar esse número, mas é impossível também mensurar alguma coisa naquele caos impenetrável. Mas é certo que número de pessoas no mundo pós-apocalíptico era demasiado menor, comparado aos habitantes do mundo antes das últimas guerras e catástrofes.

De modo geral, a estrutura padrão das colônias, se dividia em uma classe guerreira e dominante, uma classe intermediária com domínio técnico e a classe inferior, responsável pelo trabalho braçal e também pelo apoio às forças militares.  Em Nísis não era diferente, além do clã militar, que ditava todas as regras e normas, havia também o clã transformador, braço direito dos militares na infraestrutura e construção de armas, e os coletores. Os transformadores eram também muito respeitados em todas as colônias, principalmente nas colônias baixas. Sua importância era ainda mais valorizada, já que seus talentos poderiam garantir bons equipamentos de ataque e defesa. Cientistas e desenvolvedores de novos equipamentos faziam parte deste clã, regularmente os transformadores questionavam sua influência secundária, às vezes pareciam querer medir força com os militares, não admitindo que seu intelecto fosse visto como algo menos importante que a força. Por motivos óbvios, a capacidade de combate e defesa eram prioridades em tempos de guerra, poder que os militares conquistaram ao logos dos duros anos de vigília constante. Tal frustração tornava os transformadores até mais arrogantes e fechados que o clã militar.

A classe mais numerosa e tida também como inferior, era conhecida como a classe coletora.

Os coletores formavam a grande maioria do povo, Nísis tinha algo em torno de três mil habitantes e dentre eles, mais de dois mil eram desta classe mais inferior, os coletores, embora nem sempre respeitados, faziam o trabalho mais pesado e não menos importante, que era extrair da terra e de montanhas centenárias de entulhos, os valiosos restos do Mundo Antigo. Além da coleta, a classe inferior também era designada para apoiar o exército em caso de invasões mais perigosas. Nas colônias baixas, os coletores moravam nas regiões periféricas, quase na divisa entre os limites do perímetro urbano e a área inabitada, destinada justamente à extração de recursos. Os transformadores concentravam-se na região urbana e os militares no centro, com ramificações de monitoramento que iam até os limites da colônia.

 

Aproveitar os restos do passado, era à base da sobrevivência de todas as colônias no pós-mundo, sem exceção, com a esterilização da natureza em estado avançado já há muitos anos, as velhas indústrias de matérias primas já eram vistas até como uma lenda duvidosa. Era difícil acreditar que um dia, foi possível extrair tudo de uma fonte renovável natural. Tudo se baseava no reaproveitamento. metais, plásticos, tecidos sintéticos, componentes eletrônicos, produtos químicos, tudo. Essa cultura do reaproveitamento influenciava até mesmo a cor dos lugares, havia uma atmosfera enferrujada e desgastada em tudo o que os olhos podiam ver, havia poucas cores em uma época onde tudo era resto de um passado longínquo, ou ainda reaproveitamento dele. Mas apesar da escassez de recursos primordiais, a tecnologia era abundante, essa foi a herança mais valiosa do Mundo Antigo e também a salvação do que restou dele. A tecnologia inclusive, proporcionava até as necessidades básicas como alimentação.

Todas as colônias detinham, desde seus primórdios, uma matriz de clonagem de nutrientes que supria suas necessidades fisiológicas, com essa base, era possível desenvolver de maneira padronizada, as fontes de vitaminas indispensáveis para a sobrevivência humana. Em Nísis e na maioria das colônias, todos os nutrientes costumavam ser concentrados em uma barra vitamínica sem gosto que todos recebiam em quantidades controladas. O nome desta barra era NUT, e havia pouca diferenciação quanto a sua concepção de uma colônia para outra. Em algum momento da história, o prazer associado à alimentação perdeu completamente o sentido, estando à ingestão de comida, associada apenas à sobrevivência. Até mesmo as moléculas da água, nutriente primordial a todos os seres vivos, foi agregada ao NUT. Algumas Cidades Torre conseguiram evoluir um pouco mais neste quesito, colocando algum gosto na comida e transformando seu estado de sólido para pastoso, mas não foi nada, nem de longe comparado aos registros sobre alimentação no Mundo Antigo.

 

Apesar de algumas similaridades, não havia qualquer relação diplomática entre as colônias, a comunicação se restringia a um comportamento já quase instintivo de confronto por recursos. Cerca de cento e cinquenta anos após a consolidação das colônias no continente, a coleta de restos começou a ficar escassa, cada vez menos do que se coletava podia ser reaproveitado como antes. Diante disso, algumas colônias começaram a praticar o assalto, ou exploração de colônias julgadas como inferiores. Isso, com o tempo, tornou-se uma cultura, as operações de pilhagem foram se aprimorando e em alguns anos transformaram-se em um procedimento repleto de convenções.

Regularmente, uma tropa de soldados escoltados por dois ou três RDs, chegava às colônias mais fracas e extraía suas reservas em quantidades seguras, isso para assegurar a recuperação da colônia invadida com um mínimo. A resistência ou o consentimento a tais invasões, poderia determinar um assalto pacífico ou violento. Se a colônia invadida não confrontasse os invasores, seu único problema seria recompor seus recursos. Caso tentasse impedir a invasão, era provável que sua fraca defesa fosse destruída justamente com parte da cidade, tornando sua vulnerabilidade ainda maior perante não só outras colônias, mas também a qualquer outra ameaça da Terra Devastada. Ninguém queria isso, daí a necessidade de uma boa gestão militar, capaz de saber a hora certa de consentir ou confrontar os assaltos. Em alguns casos a defesa conseguia conter a invasão, mas para isso, era preciso muita astúcia do General e seus militares.

Todas as colônias baixas, assim como Nísis, sonhavam em tornarem-se cidades torre para se libertarem desta realidade tão injusta. Era impossível assaltar uma Cidade Torre, seu tamanho impossibilitava qualquer chance ataque. As colônias baixas, no entanto, precisavam estar em constante vigília para garantirem sua sobrevivência.

A possibilidade de surgirem novas cidades colossais a partir destas colônias, foi ficando cada vez mais remota à medida que a escassez e a prática de pilhagem ficaram mais comuns. Para uma colônia chegar ao patamar de Cidade Torre, uma quantidade monstruosa de trabalho, recursos e tempo, seria necessária, e isso foi tornando-se impossível.

Apesar de as numerosas colônias baixas serem um alvo certo, por muitos anos, nem as Cidades Torre tentaram pilhar outras Cidades Torre, devido ao desgaste e provável vulnerabilidade que uma ação dessas poderia causar em ambas.

Nas Cidades Torre, e principalmente nas colônias baixas, o individualismo tirano em nome da sobrevivência, já era um senso comum desde seu princípio. Isso influenciou também o comportamento de cada indivíduo em particular, criando uma devoção religiosa aos exércitos e uma necessidade obsessiva de se estar sempre preparado para a guerra de forma quase selvagem. Assim, a idolatria dos moradores aos militares provinha de sua necessidade de, antes de tudo, sentirem-se protegidos dos perigos provenientes da Terra Devastada.

 

Essa consciência transformou os militares no clã superior em qualquer colônia, além da proteção ao povo, que era o grande motivo para tanta devoção, à gestão das colônias pelo General e seu clã era algo indiscutível. O povo sempre acreditava em seu general até a morte, isso porque todos sabiam que sua sobrevivência, dependia principalmente da força e inteligência do Chefe Maior. Além disso, nas colônias mais preparadas, os militares promoviam também os assaltos em outras colônias, ação que reforçava o arsenal e também os recursos de consumo. Em certos momentos, poderia não ser saudável enaltecer tanto um clã passível de fazer qualquer coisa em nome de seu ego, mas qualquer situação também era suportável, quando comparada à hipótese de não se estar sob uma proteção militar. Seria impossível sobreviver.

 

Em Nísis, o desprezo que os militares e transformadores costumavam ter pelos coletores, era devido a um preconceito relacionado à suas supostas limitações intelectuais, segundo os transformadores, a classe inferior era capaz apenas de extrair e separar sucata. Uns diziam até que boa parte do trabalho de coleta poderia muito bem ser substituída por supostas máquinas inteligentes, muito mais eficazes segundo algumas teorias, no entanto, não havia o que fazer com milhares de indivíduos, “teoricamente” incapazes de realizar qualquer outra tarefa enquanto máquinas realizavam seu trabalho.

Uma função reserva para os coletores era um apoio ao exército em casos específicos, se a colônia precisasse de um confronto corpo a corpo, eram os coletores que iriam na linha de frente como sacos de areia. Mas essa possibilidade era tratada como uma oportunidade de a classe inferior sentir-se tão importante quanto os militares, embora tudo não passasse de uma ilusão perigosa.

Nísis surgiu tardiamente algum tempo após boa parte das colônias no continente já estarem estruturadas, mas sua origem não foi diferente das outras, acontecendo através da união de pequenos grupos e também restos de outras colônias mais fracas, destruídas por vulgos ou renegados. Muitos habitantes agregados, eram apenas coletores, isso tornava o contingente da classe inferior demasiado maior em comparação com outras colônias. Ainda em épocas mais atuais, Nísis chegou a agregar novos refugiados de colônias caídas para reforçar seu contingente no serviço de coleta, seu número de habitantes aumentou com isso, mas o contingente militar e transformador permaneceu baixo, o que preocupava muito seus governantes.

Algo motivador no grande contingente de coletores, era que dificilmente a colônia poderia passar por uma grade falta de recursos, já que mão de obra não faltava para produzi-la. A energia também era um recurso um pouco menos trabalhoso de se produzir, os dolorosos anos de guerra apocalíptica proporcionaram as mais diversas tecnologias de aproveitamento eficaz da energia proveniente da luz, do vento, de elementos químicos e até outras fontes menos prováveis como o movimento do próprio corpo humano por exemplo.

As fontes de energia também eram um recurso muito cobiçado por invasores e Nísis, sempre conseguiu produzir energia abundante.

Nísis chegou a sofrer invasões violentas em um passado mais remoto, mas nesta época em que viveu Osíris Bahr, a colônia vivia um período próspero, crescendo consideravelmente através de boas estratégias de defesa e um potencial bélico cada vez mais forte, constituído principalmente por seus poderosos RDs.

A população estava eufórica, com as vitórias militares e suas perspectivas futuras. Todos se orgulhavam do crescimento como se nada pudesse mudar isso, muitos chegaram até a acreditar que logo a colônia se transformaria em uma cidade torre.

 

Ângelo cumpria seu dever de coletor na área das máquinas, desenterrava os restos e os separava com grandes máquinas próprias para isso. Cipriano trabalhava com ele e sempre que podiam, conversavam sobre o que estava acontecendo.

Nísis conseguiu dominar Bêni – Disse Cipriano chegando ao canteiro de coleta.

– Aquela colônia mais ao sul? – Perguntou Ângelo.

– Sim, ela estava apenas com um RD, e nós conseguimos a rendição dos militares. Ela tem bons recursos para serem explorados.

– Estamos numa fase boa – Disse Ângelo displicente.

– Nossa fase é ótima – corrigiu Cipriano – fora o RD rendido em Bêni, estamos com dois RDs construídos aqui, mais o velho Beta e também os dois capturados das invasões que sufocamos no último ano, somando tudo, dá praticamente seis guerreiros guardiões. Dizem até que já começaram a organizar os grupos de trabalho para a construção de nossa cidade torre.

– Já ouvi alguns cientistas comentarem sobre isso – disse Ângelo – dizem que hoje nenhuma colônia baixa é capaz de se tornar uma cidade torre. Não dá tempo de crescer antes da próxima invasão.

– Mas nosso exército está bem preparado – disse Cipriano – acho que pode dar certo.

– Bem, meu amigo, nossa opinião sobre o arrogante general Martins é a mesma.

– É verdade, pelo menos o ego de uma cidade torre Nísis já tem, e esse é o problema.

– É, essa arrogância de nosso exército pode complicar a nossa vida algum dia.

Ângelo soltou um suspiro de preocupação.

– Está tudo bem? – Perguntou Cipriano.

– Por enquanto sim – respondeu

– É o seu filho?

– Sempre é – respondeu Ângelo olhando para o nada.

– O que você pretende com ele?

– O que me conforta um pouco é a sua capacidade de aprender rápido, Osíris consegue resolver qualquer problema que exija alguma coisa dele, mas ele odeia tudo isso aqui, essa idolatria militar, esse instinto guerreiro, toda essa realidade indispensável em uma colônia como a nossa. Não consigo entender como ele pode ser tão diferente, isso é anormal, a sobrevivência dele depende disso.

– Eu boto fé naquele menino, ele é muito esperto. Meu pai tem uma admiração fora do normal por ele, ele diz que o Osíris foi um erro da natureza, que o deixou nascer aqui nesse lugar, ele deveria estar em alguma cidade torre no posto de cientista mestre ou algo assim.

– Me preocupa muito até aonde esse erro da natureza pode chegar – disse Ângelo.